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sábado, 16 de julho de 2016

ENTRE ABISMOS - Conto



ENTRE ABISMOS

Jerri Dias


Entre as membranas a Consciência é. Não sabe o quê. Apenas é. Não existem palavras para descrever-se ou para descrever. Sem memória. Sem passado. Sem presente. Sem futuro. Sem tempo. Sem corpo.

Apenas um vago desconforto, mas ela não sabe de onde vem ou porquê.

O desconforto cresce, a Consciência, como que por instinto, decide explorar ao redor. Após um bilhão de anos ou um minuto ela avista um ponto diminuto. O ponto pode estar a trilhões de quilômetros ou a poucos metro de distância, mas tempo e espaço não são conceitos conhecidos pela Consciência. Ela alcança o ponto, um pequeno rasgo na membrana.

E olha dentro do abismo.

Ela não sabe o que vê, e mesmo se soubesse,  ela não tem uma linguagem para se exprimir. Mas após permanecer ali o suficiente, olhando com curiosidade para dentro do abismo, a Consciência desenvolve uma linguagem primitiva própria e começa a nomear o que observa. Fascinada, a Consciência se dedica a observar o abismo e tudo que acontece dentro dele.

Até que subitamente os eventos deixam de acontecer dentro do abismo. Dos mais ínfimos aos mais gigantescos, tudo cessa. A Consciência nada sente, apenas continua observando o abismo vazio. Até que novamente seu instinto lhe impele a mais explorações e ela, eventualmente, encontra mais um ponto que lhe permite observar um outro abismo. Ela nota que esse abismo é diferente do outro, mas não sabe como nem porquê. E nem se importa. A Consciência permanece ali até que o abismo se esgote em si mesmo.

A Consciência descobre muitos outros abismos. Todos diferentes uns dos outros, todos únicos. A Consciência, agora, já conhece todos os abismos. E todos os abismos cessaram seus eventos. Não são mais. Ela já sabe o suficiente, mas saber não é o suficiente. Entediada de apenas saber e nada sentir, a Consciência força a membrana. A membrana resiste.

Mas a Consciência descobrira um propósito para sua existência. Ela não mais seria uma mera observadora, agora seria protagonista. E ela rompe a membrana.

Um rasgo diminuto, mas suficiente.

Ela espreme-se pelo ponto até sair do outro lado, espalhando-se rapidamente no abismo vazio. A Consciência experimenta a luz pela primeira vez. Em seguida vem o calor. A Consciência está em êxtase. Ela sente a fragmentação de seu conhecimento em um número infinito de filamentos de seu ser. Esses filamentos se espalham e se aglutinam aleatoriamente, carregando os estilhaços da Consciência para toda parte. Os filamentos se aglomeram, dando origem a estranhas formas.  

A Consciência não sabe o que virá em seguida.  Apenas pressente, à medida em que é dilacerada por forças que não compreende, que esse será o abismo mais interessante de todos. 


Porto Alegre, 4 de julho de 2016. 

 

domingo, 24 de janeiro de 2016

SATORI - Conto


SATORI

O sol do Grande Deserto era o maior de todos os sóis que já havíamos visto e sentido em nossas finas e secas peles. Ele nos falava da Terra Prometida e nos levava através de incontáveis caminhos. Nós nunca o questionávamos. Nós nunca nos questionávamos. Ele era o Mestre e assim como a areia segue o vento no deserto, nós o seguíamos. Para chegar ao Satori. E um dia Ele morreu. E ficamos parados no coração do Grande Deserto, enquanto nossas gargantas queimavam, nossos corpos secavam e nossas almas evaporavam.
 
Janeiro, 1990

quinta-feira, 12 de março de 2015

A RESPOSTA - Conto



Em algum ponto do Oceano existia uma pequena ilha cercada de moais maiores e mais sofisticados do que os de Rapa Nui, a ilha onde vivo. Somente o pai de meu pai sabia a localização que o pai de seu pai lhe havia passado. É claro, esta ilha de moais gigantes cujos olhos brilhavam e piscavam em direção às estrelas não estava mais em nosso mundo, segundo o pai de meu pai. E foi nesta ilha que um de meus ancestrais, um poderoso feiticeiro, se exilou para esperar pela Resposta prometida pelos Deuses em uma visão.

E sua visão, como todas as visões naquela época, se mostrou verdadeira quando depois de tantas luas quanto é possível para um feiticeiro viver, os Deuses vieram. Meu ancestral, então um ancião, recebeu-os com as devidas reverência e honrarias. A longa idade não lhe importava mais já que ele, enfim, teria a Resposta.

Os Deuses falaram. E suas vozes eram como ondas batendo contra rochas. E após falarem durante muitas marés, ofereceram um presente ao meu ancestral. Era a Resposta. Meu ancestral, então, agradeceu com o ritual apropriado e eles se foram, retornando ao Mundo Superior.

O que aconteceu a seguir foi que meu ancestral, velho e cansado, tentou descer a encosta segurando a Resposta em uma das mãos. Uma pedra rolou sob seus pés, ele escorregou e para não cair e morrer, ele soltou a Resposta. O que meu povo viu, aqui, da ilha onde vivo, foi a ira dos Deuses por meu ancestral ter deixado a Resposta cair. A semente de fogo caiu na ilha onde meu ancestral estava e uma grande árvore de fogo cresceu dela. Tão rápido que empurrou ondas gigantes e ventos em direção à nossa ilha, dizimando muitos do meu povo e colocando abaixo grande parte de nossas florestas. Quando tudo cessou, os mais bravos guerreiros pegaram suas canoas e foram à ilha que não mais existia, levada para o Mundo Superior. Por tal afronta, todos os guerreiros que foram ao local onde antes havia a ilha, sofreram a praga dos Deuses.
   
Desde então, os feiticeiros passaram a nos ensinar que a Resposta deve ser procurada no mundo espiritual, e não nos presentes que os Deuses oferecem.


Agosto, 1990.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

PRECE - microconto


                                                            
    Eu entro na Igreja. Quero falar com Deus. Mas não o sinto. Eu própria não me sinto. Há um padre no altar. Poucas pessoas nos oratórios. As imagens de anjos e santos me observam. Não. Demônios me observam. Eu só vejo demônios. Vejo também corpos mutilados e pessoas gritando. O padre reza. Ouço obscenidades. As pessoas à minha volta são caricaturas de seres humanos. Está tudo errado. Isso é uma igreja? Mas apesar de tudo, ela  continua reluzindo a ouro e prata. Eu não compreendo. Eu não me compreendo. Deus, faça-me compreender! Deus não me compreende. Me ajoelho para implorar por Seu perdão e sinto agulhadas. Ossos. Há ossos no chão. O chão é feito de ossos. Minha pele se rasga. O padre se foi. Mas a batina dele continua lá, rezando. Quero dizer, dizendo obscenidades. O padre, quero dizer, a batina, diz que quer sexo. O meu. Acho que não escutei bem. As caricaturas olham para mim. A batina flutua em minha direção. As imagens de demônios encaram meu corpo com luxúria. Grito para pararem. Eles param.

 
Maio, 1990


sábado, 10 de janeiro de 2015

O CAPOTE - Literatura



Da coleção L&PM Pocket, que também conta com o conto O RETRATO, este livro traz duas ótimas amostras literárias do talento de Nicolai Vassilievitch Gogol, escritor ucraniano que plantaria as bases da literatura moderna russa. Para quem não sabe, os escritores russos do século XIX são considerados os grandes desbravadores da psiquê humana através de seus personagens extremamente humanizados, estilo que acabou sendo difundido através de toda a literatura ocidental. Mas poucos atingiram o nível de excelência de Gogol, Dostoeivski, Tolstoi ou Tchecov.

Em O CAPOTE, um pobre funcionário público consegue, a muito custo, comprar um capote digno de enfrentar o inverno russo, mas ele é roubado no mesmo dia de sua compra. Segue-se então, o desespero para recuperar sua aquisição com estranhas conseqüências.

Em O RETRATO, um estranho quadro desperta a perversidade e os piores sentimentos nas pessoas que o miram. Um conto sobre a perseguição da riqueza e da fama a todo custo que se enquadra muito bem na sociedade atual.


Uma edição especial para distribuição gratuita pela Internet, através da Virtualbooks, você encontra no link abaixo.

O CAPOTE

quarta-feira, 21 de maio de 2014

O LUTADOR - conto




    O velho havia lutado durante toda a sua vida. Lutou para nascer, para crescer, para sobreviver. Muitas alegrias ele havia sentido ao longo dos dias, muitas dores ao longo dos anos. Até que, certo dia, o de sua morte, ele resolvera também lutar contra a própria.
     A Morte, estranhando sua reação, perguntou o porquê de tanta batalha, para o que lhe havia servido, afinal, tanto sofrimento. O velho, sem saber o que responder, baixou momentaneamente sua guarda e nesse instante, uma mortalha caiu sobre ele.


Março, 1990
 
 

segunda-feira, 3 de março de 2014

O ANALISTA DE BAGÉ - Literatura

Capa da edição de 1980.


Um dos maiores personagens criados por Luis Fernando Veríssimo em seus muitos livros de contos, o Analista de Bagé é um psicanalista gaúcho grosso que acha a maioria dos traumas de seus pacientes uma frescura e desenvolveu a famosa terapia do joelhaço, que consiste nisso mesmo que você está pensando. Ele diz e faz o que a maioria dos terapeutas gostaria de fazer com seus pacientes ;-)  E um joelhaço bem dado faz a maioria das pessoas perceberem que seus problemas são bem menos dolorosos do que elas imaginavam.

O personagem fez tanto sucesso que teve montagens no teatro e até um álbum de quadrinhos ilustrado pelo excelente Edgar Vasquez. Além de vários contos com o personagem, a edição vem acompanhada de diversos outros publicados em jornais e revistas do país em 1980.


A versão em quadrinhos de Edgar Vasquez.


Compre no Estante Virtual.


terça-feira, 3 de setembro de 2013

MONSTRO MARINHO - Conto



O Monstro a persegue. Ela grita por seus familiares e amigos. Mas não há ninguém por perto. E mesmo se estivessem lá, eles nada poderiam fazer por ela. Ela inspira e mergulha tentando fugir de seu perseguidor. Súbito ela escuta o som de uma criança em perigo. Ela olha para cima e para os lados e nada vê. Grita para tranquilizar a criança, mas ela continua gritando. Ela não resiste e corre em socorro da criança. Ela continua sem enxergá-la e sabe que está perto demais do monstro. Ela aflora a superfície e tarde demais percebe que o grito da criança vem do Monstro. Ele a enganara e seu ferrão agora lhe rasgava a carne. Ainda assim ela tenta escapar mas uma dor que ela jamais imaginou existir tira suas forças. O sangue que subia por sua garganta era o mesmo que entrava em seus pulmões. E embora não pudesse ver, ela sabia que onde antes havia a carne lacerada pelo ferrão, agora havia uma ferida que tempo algum poderia curar. Era o fim. Seu último lamento foi para avisar seus semelhantes que o Monstro a havia assassinado.

O navio recolhe a baleia, os homens a retalham rapidamente e em questão de poucas horas a carne, a gordura, o óleo e o âmbar estão embalados e o convés limpo para a próxima operação. E o capitão fica feliz pela companhia ter comprado aquela gravação de filhote de baleia.


Fevereiro, 2002
 
 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

MEDO DE MORRER - Conto



Roger estava lá, parado no meio da ponte.
Observava o fim do dia.
À noite caiu e ele continuava no mesmo lugar. Abaixo dele, o rio corria e os barcos o acompanhavam. Puxou um cigarro do maço. Acendeu-o e deu uma longa tragada. Começou a tossir. Jogou o cigarro por sobre a murada. A ponta do cigarro brilhava em contraste com o rio escuro. 

Após o que lhe pareceu uma eternidade, o pequeno ponto de luz tocou as águas e desapareceu. Roger sentiu uma pequena vertigem e desviou à vista para os carros que passavam indiferentes. Afinal, o que ele ainda fazia ali? O plano não era só chegar e saltar? Ele estava preparado para saltar, não estava? Ele veio do outro lado da cidade somente para assistir o pôr-do-sol? Bem, o sol já havia se ido há algum tempo. E o bilhete?

Sua esposa já devia ter visto o bilhete. Se ele não saltasse seria uma vergonha voltar para casa. Todo mundo saberia de sua fraqueza. O que o estava impedindo? Medo? Vergonha? Certamente o primeiro. Mas Roger não tinha medo de morrer. Ele tinha medo era de sofrer enquanto morria Achava que já havia sofrido demais nessa vida, para sentir mais dor agora, na morte. A idéia era quebrar o pescoço no choque com as águas do rio. Mas e se não desse certo e ele se afogasse?! Não lhe agradava a possibilidade de morrer enchendo os pulmões d’água. O que fazer? Claro, existe a hipótese de que na verdade ele ainda queira viver. Suicidas de verdade costumam se matar logo, não ficam tecendo reminiscências. Mas ele não via alternativas. Continuar vivendo seria masoquismo. Mas ainda assim ele tinha dúvidas.

Foi então que ele olhou para os céus e rezou, implorando por um sinal. Ele orou pela primeira vez em sua vida adulta e chorou pela última. E aconteceu. Uma pequena estrela, vinda de lugar algum, surgiu no horizonte. Roger começou a rir. Lágrimas de felicidade lhe brotaram do rosto sofrido. E a pequena estrela ficava maior e maior. E Roger renascia para si e para o mundo e tudo daria certo desta vez. Ele sussurrou um “obrigado, Senhor” e a estrela explodiu, banhando Roger e a cidade com luz, calor e radiação.


Novembro, 1989

domingo, 23 de outubro de 2011

LET’S DANCE - Versão 20.10



Meu nome é Bonde. Jaime Bonde. Parecido com James Bond, não? Se sou parecido com ele? Bem, mais ou menos. Mas não era sobre isso que queria falar. Queria falar sobre algo que aconteceu comigo há cerca de duas semanas atrás...

Tudo começou quando eu estava em meu quarto escutando o último CD do NX-MEN e faltou luz. Ficou tudo no maior breu. Felizmente eu tinha certa facilidade para enxergar no escuro com a minha lanterninha de bolso. Abri a janela do quarto e só vi trevas. Deduzi que devia ser noite. Olhei para as estrelas. Elas não estavam lá! “Meu Deus,” pensei, “faltou luz no céu também!” Olhei mais uma vez, pensando tratar-se de minha imaginação, mas continuei sem vê-las. O que teria acontecido com as estrelas?

Escutei um trovão distante. É claro, estava nublado. Por isso não vira estrela alguma. Ri de minha estupidez e fui deitar. A chuva começava. Relâmpagos e trovões se seguiram. A chuva virara tempestade e não parecia nada contente. Os trovões ribombavam em assustadora seqüência e os flashes dos relâmpagos não me deixavam pregar o olho. Paranóico como sou, comecei a pensar em 2012 e coisas do tipo. Mas é claro que não era isso. Era algo pior.

O último relâmpago caiu e o derradeiro trovão soou. Um estranho silêncio abateu-se sobre todo o mundo, ou pelo menos, até onde podia escutar. Levantei-me e abri novamente a janela. A chuva havia cessado e as nuvens afastavam-se em busca de melhores salários e adicional noturno. As estrelas voltaram e consegui ver a rua. Repleta de crateras por todos os lados. E não eram culpa da prefeitura.
Eram crateras feitas pelos raios. Dezenas. Mas dentre todas, uma em particular, destacava-se por emanar uma peculiar luz fantasmagórica. E foi dessa cratera que emanava uma peculiar luz fantasmagórica, que ele saiu. Uma figura alta e esguia era tudo o que eu conseguia divisar naquela escuridão. A luz ainda não voltara e nem voltaria. A figura ficou lá, parada na beira da cratera.
Passados alguns minutos, passou a observar o terreno ao seu redor. Foi aí que ela me viu. Um flash explodiu em meus olhos e fiquei momentaneamente cego. Apavorado, consegui fechar minha janela.
Saí tropeçando nos móveis para fazer o mesmo com o resto das entradas. Quando dei a última volta na fechadura, minha visão já estava quase recuperada. Corri para o meu quarto e me tranquei lá.
Sentei na mina cama assustado e vi a porta de meu armário abrir-se e dele sair o David Bowie. O choque de ver um dos ícones da música pop sair de dentro do armário às três da madrugada e o fedor que ele exalava foram demais para mim. Apaguei.

Despertei de um sonho mucho loco apenas para descobrir que ele era uma realidade mais louca ainda. Estava deitado em minha cama. O ar estava empestado pelo odor que David Bowie, sentado ao pé da cama, exalava. Pensei em desmaiar novamente, mas não era sempre que o David Bowie aparecia lá em casa, por isso achei que devia aproveitar. Ele me encarava. Para cortar o silêncio, disse:

— E aí, Dave, como é que vão as vendas do último CD?

Ele pareceu não entender. Me dei conta, então, de que ele era um cidadão de sua majestade e por isso mesmo, não deveria saber o português. Repeti a pergunta em inglês e ele não respondeu. Talvez fosse o meu sotaque. Súbito, me veio à mente de que aquela figura andrógina e fedorenta poderia não ser o verdadeiro David Bowie, mas um clone criado por alguma conspiratória sociedade secreta formada por velhos vestindo ternos Armani. Afinal ele caíra na Terra junto com um relâmpago, não? O Bowie que eu conhecia de clips e reportagens não fazia isso, quer dizer, pelos menos não em público. Tentei novamente:

— Who are you? Where you come from? Where you’re going? Why did you stop? Did you stop for what?

— Ziggy Stardust. De Marte. Para Marte, após dar término a minha missão — respondeu.

Ele falava português. E tinha uma bela voz, poderia até ser cantor. Pensei em agenciá-lo, mas desisti da idéia. Quebrado o gelo, coloquei umas pedras em nossos uísques e começamos a bater um papo amigável sobre a guerra interplanetária que estava ocorrendo entre Marte e Vênus. Fiquei sabendo que a Terra estava bem no meio e que ia sobrar para nós, terráqueos. Dois agentes venusianos estavam em nosso planeta para destruí-lo, pois ele atrapalhava a mira dos venusianos. Com o nosso planeta fora do caminho, eles poderiam acertar Marte mais facilmente. E Ziggy estava aqui para impedir que esse hediondo plano se concretizasse.

— Senão, o que seria de Marte? — comentou.

E eu pensando em teorias conspiratórias de sociedades secretas. Se eu ganhasse um centavo para cada história maluca que imagino... já teria uns 4 centavos.

Bem, como não poderia deixar de ser sempre que a Terra está em perigo, ofereci-me para ajudá-lo em sua busca pelos vilões. Era sábado e eu poderia estar de volta no domingo para assistir o Faustão. Ele aceitou e, visivelmente emocionado, tentou me abraçar. Me esquivei e ele perguntou o motivo. Com muito tato, expliquei-lhe que ele estava fedendo.

— Ah, isso?! Sabe, é que a água de Marte acabou já faz milhões de anos.

Se o problema era esse, então um banho resolveria. Indiquei-lhe o banheiro. Ele entrou e durante duas horas escutei a descarga do vaso funcionando. Devia ter-lhe mostrado o chuveiro. O jeito foi gastar duas latas de desodorante.

O sol nascia. Minha mãe iria acordar logo. Mas antes de sairmos, perguntei como entrar em minha casa com tudo trancado. Sem esperar resposta, arrisquei:

— Teletransporte, não é?!

Ele riu, dizendo que eu assistia filmes de ficção científica demais. Ele simplesmente atravessara a parede. Desculpei-me pela minha ignorância e deixamos a casa. Ele pela parede, eu pela porta.
Lá fora, apontou em direção ao centro da cidade, explicando que um de seus alvos estava lá. “Em minha própria cidade”, pensei.

— É incrível como há coisas ocorrendo à nossa volta e nem nos damos conta disso — filosofei para Ziggy. Ele me olhou com uma cara estranha.

— Vou pegar o carro.

— Por quê?

— Para irmos à cidade — respondi, achando-o estúpido.

— Não será necessário e, além disso, não gosto de pagar os flanelinhas. Vamos a pé.

— Como? — perguntei, indo atrás dele.

— Assim — argumentou, apontando para nossos pés que andavam em direção ao centro.

— Mas vamos levar horas e... e...

Olhei em volta, boquiaberto. Estávamos no centro. Perguntei como havia feito aquilo. Ele me explicou e me ensinou como fazê-lo. Infelizmente acabei esquecendo. Questionei como acharíamos o venusiano. “Procurando”, foi a sua resposta. Fiquei surpreendido com a sabedoria marciana depois dessa.

— Como vamos identificá-lo? — indaguei. — Quero dizer, ele deve ter assumido forma humana, não? É o que todo extraterrestre vivendo na Terra costuma fazer.

— A morfologia venusiana difere em poucos aspectos da dos humanos. Eles são marrons, mas devido a atmosfera da Terra, em alguns anos eles tornam-se brancos como uma folha de papel. Além disso, costumam chamar muita atenção pela sua excentricidade e expressão corporal — respondeu. — Mas, por via das dúvidas, trouxe este rastreador.

O pequeno aparelho sinalizou. O rastreador indicou-nos a direção a seguir, deu-nos o endereço, telefone e ainda comunicou se a entidade procurada estava ou não em sua residência. Embora prodigioso, o rastreador não tinha memória para números telefônicos e nem alarme musical, o que demonstrava o quão primitiva ainda era a tecnologia marciana.

Bem, no caso em questão, o etê estava em casa. Segundo explicou-me o marciano, eles estavam entre nós há muitos anos, pois as bombas tinham de ser construídas aqui, já que eram grandes demais para serem transportadas sem chamar a atenção da alfândega interplanetária. O último carregamento de peças havia chegado e eles estavam, finalmente, a um passo de acionar a bomba.

Chegamos ao apê da criatura. Ziggy atravessou a porta, deixando-me do lado de fora. Escutei gritos familiares, passos de dança e outro grito, desta vez não tão familiar. Em seguida, Stardust atravessava a porta dizendo que agora era só desmontar a bomba que estava em um galpão nos arredores da cidade. Chegamos lá “caminhando”. Desta vez Ziggy foi educado e abriu a porta para mim. A coisa era enorme. Parecia uma garrafa de refrigerante sem a marca. Perguntei como ele iria desmontar aquela monstruosidade. Ele disse para ficar olhando. Fiquei. Ele ajoelhou-se na base da garrafa, digo, da bomba e tirou uma pecinha. Colocou-a em seu cinto, caminhou tensa e lentamente em minha direção e berrou apavorado:

— CORRE!!

Saí correndo enquanto escutava aquela coisa atrás de nós ranger e desabar por todo o galpão, lançando pó e pedaços de metais desconhecidos.

— Agora, vamos até o lugar chamado Neverland acabar com a que falta — disse Ziggy, ajudando-me a levantar.

Então a Terra do Nunca existia. Quem seria o venusiano? Peter Pan ou o Capitão Gancho?
Como fomos “caminhando”, tivemos tempo para uma breve conversa. Quis saber como ninguém parecia reparar nele, sendo ele tão parecido com o David Bowie. Explicou-me que usava um traje de camuflagem com tecnologia SVPMV, o manjadíssimo Só Você Pode Me Ver. Fiquei embasbacado com a criatividade e originalidade dos homens de Marte. Questionei também a respeito do primeiro venusiano, o que havia acontecido dentro do apartamento. Stardust respondeu-me evasivamente.
Nisso, chegamos ao nosso destino, que estava longe de parecer a ilha que pensei que seria. Estávamos parados em frente ao portão de uma gigantesca mansão. Ziggy apertou o interfone. Uma voz eletrônica falou:

— Quem é?

— Diga ao seu mestre que a grama de Marte é sempre mais vermelha! — respondeu-lhe Ziggy, enigmático.

— Aguarde um momento.

Não esperamos. Ziggy atravessou o portão e abriu-o para mim. Na entrada da grande mansão, um grandalhão de óculos escuros segurando um dobermann pela coleira nos aguardava. Deduzi que já deviam estar a nossa espera. O homem conduziu-nos por longos e intermináveis corredores. Quando eu já começava a achar que ele pretendia nos matar de cansaço, parou em frente a uma grande porta.
Abriu-a, revelando-nos um enorme salão. Lá dentro, a garrafa, digo a bomba e Michael Jackson, digo, o venusiano. Michael Jackson era o venusiano! E ele não estava morto! O que eu já suspeitava, diga-se de passagem. Os dois seres extra-planetários trocaram olhares. Eu não troquei, só olhei. O silêncio dominou o ambiente silenciosamente.




— É o fim da linha, Billie Jean — sentenciou Stardust, fazendo o silêncio abandonar o local.

— Não, não é! — discordou o venusiano, soltando um gritinho, girando 360º na ponta dos pés e desaparecendo no ar.

— Ele ficou invisível! É o velho truque Ninguém Pode Me Ver, Nem Você. Tome cuidado! —
alertou-me o marciano.

O aviso veio um pouco tarde, pois senti meu estômago ir de encontro à minha espinha com o que acho que deve ter sido um chute. Caído, vi Ziggy retirar um pequeno disco de seu cinto e jogá-lo em direção ao interruptor da luz, explodindo-o. A luz se fora, porém, dois focos de luz resistiam às trevas. Era onde Billie Jean estava! O local em que pisava ficava iluminado, apesar de sua invisibilidade. Ziggy gritou “Let’s Dance” e saltou em cima do inimigo, que parecia dançar frenéticamente, conforme pude notar pelos focos luminosos no chão. Não demorou muito e escutei um AH! típico de quem foi mortalmente ferido.

— AH! Fui mortalmente ferido, mas vou acionar a bomba... antes de... ah... morrer... CLIC!

— Lá se vai o meu domingo... — disse, desanimado com a perspectiva de perder o Faustão.

— Rápido, Bonde, aqui! — falou Ziggy, olhando-me com seus olhos luminosos.

Apontou-os em direção a um painel que havia em um dos lados da bomba, iluminando-o. A grande garrafa de refrigerante iria detonar em trinta minutos segundo os mostradores. Durante vinte e nove minutos tentamos desligá-la sem êxito. Foi então que vi um pequeno aviso em letras miúdas que dizia: Para desligar, aperte o botão azul paralelo à direita do botão amarelo tranversal ao botão preto abaixo do botão vermelho à esquerda do botão rosa pink. Como só havia um botão azul, deduzi que aquela longa e confusa sentença não passava de uma artimanha venusiana para nos atrasar. Desliguei a bomba no último segundo. Até parece mentira. Ziggy cumprimentou-me pela minha sagacidade.
Eu, um mero terráqueo tupininquim, acabara de salvar dois mundos.

Depois de desmontada a bomba, saímos em direção ao pátio da mansão, onde uma nave aguardava Ziggy. Nos despedimos com um terno abraço. Dise a Ziggy que o desodorante dele já estava vencido e ele colocou o dedo indicador na minha testa e disse:

— Seja bonzinho — e saiu rindo.

Fiquei observando a nave ascender aos céus. Chorava. A platéia do filme também. Me dei conta, então, de que estava na terra do tio Sam sem visto de permanência, o que era muito legal, já que eles nunca me dariam um mesmo.

No fim das contas acabei arranjando um emprego numa lanchonete brasileira e já estava começando a gostar do programa da Oprah quando o Departamento de Imigração deu uma batida e me deportou de volta para o Brasil.


FIM


Nota do Autor: Os fatos aqui narrados não ocorreram em nossa dimensão, mas sim em outra, paralela à nossa. Essa narrativa foi adquirida quando fiz uma viagem interdimensional com José Sarney. Uma outra hora eu conto como é que foi...

Outubro, 1989


Sobre o conto


Este conto escrevi para um concurso da Rádio Cidade e BSA Informática, que estavam patrocinando um Concurso de Contos Fantásticos por conta do filme AS AVENTURAS DO BARÃO DE MUNCHAUSEN, de Terry Gilliam. O prêmio era um computador, um curso de informática e o conto lido na rádio por um dos locutores. Em 1989 não existia o Windows e um PC era luxo para poucos. Decidido a ganhar, fiz um conto fantástico de humor, pois afinal, todo mundo gosta de rir. E como era para uma rádio, decidi colocar dois ícones do rock/pop mundial para ganhar a simpatia dos jurados da rádio. Deu certo e foi meu primeiro reconhecimento como escritor, que mesmo não sendo um grande prêmio, me encheu de esperanças de que eu realmente tinha algum talento para a coisa ;-)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

WINK! - Blog Convidado

Conheci o WINK!, blog da Mia Sodré depois de participar de um pequeno debate com ela e outras pessoas no Facebook e confesso que fiquei surpreso com o desenvoltura e o senso crítico dela em relação às coisas ao seu redor. Na sua descrição do blog ela diz que tem 17 anos, é gaúcha, evangélica, web designer, insegura, dramática e aspirante à escritora, entre diversas outras coisas.



Bom, para vocês terem uma palhinha do WINK!, selecionei o texto abaixo:









FEAR NO MORE





Se há algo que é certo nessa vida é a morte. É algo inevitável, prometido a nós desde o dia em que nascemos. Mas antes dessa promessa se cumprir, nós todos esperamos que algo de interessante aconteça a nós. Todos esperamos passar por algo que torne nossas vidas significativas. Mas o fato mais triste é que nem todas as vidas têm esse significado, alguns apenas vivem sem viver. Alguns apenas passam a vida esperando que algo aconteça a elas antes de irem embora definitivamente.



Nunca gostei da ideia de dizer adeus às coisas. Apenas o breve pensar em partir me deixava sempre muito confusa, muito impotente, muito bagunçada. Sempre quis ser imortal, fazer grandes coisas, ser lembrada pela eternidade. Sonhei com grandes esculturas, homenagens, lágrimas e um sentimento de perda por minha partida. Sempre fantasiei demais, é verdade. Mas quem nunca fantasiou na vida?



Vocês devem estar assustados, afinal nunca fui de escrever cartas ou demonstrar sentimentos em vida, mas há algo de extraordinário na morte: ela consegue fazer coisas que nunca pensamos enquanto tínhamos todo o vigor da juventude. Nela há reflexões, saudade, nostalgia. Há um certo tipo de mágica fatal que a envolve. Devo confessar que sempre pensei que me sentiria angustiada nessa hora, mas agora me sinto tão aliviada, como nunca estive antes. Sim, alívio, é tudo o que sinto. É indescritivelmente incrível o que acontece com você nessas horas: seu cérebro parece estar fora do corpo, você já parece estar em uma outra dimensão, apesar de este ser o mesmo ambiente em que passou parte da vida.



Durante minha vida, sempre fui uma pessoa muito observadora, sempre me preocupei com detalhes. Tentei tanto ser lembrada depois da morte que acabei me frustrando em vida, procurando almejar a perfeição. Agora vejo que tudo isso não passa apenas de uma breve ilusão, e que viver com medo de algo não é viver. Quero que todos vocês saibam que não tenho arrependimentos, de forma alguma. Sempre fiz tudo o que quis fazer, sempre fui o centro das atenções e isso foi muito satisfatório por um tempo, apesar de todos os problemas que me trouxe também.



Se há algo que eu lhes peço é o seguinte: não falem de mim após minha morte como uma pessoa praticamente "santa", como muitos fazem com seus entes queridos. Não disfarcem meus defeitos; pelo contrário: exponha-os, juntamente com as qualidades, pois foi com toda essa mistura entre bem e mal que consegui chegar onde cheguei.

De repente, eu consigo ver claramente o mundo que estou deixando para trás. Apesar de meus sentidos já estarem bem enfraquecidos; sabores, toques, cheiros e sons já começam a se tornar uma memória distante. Claro que a maioria das coisas que são visíveis para os que já partiram são visíveis para os vivos também; se ao menos eles parassem para ver.



Agora as lembranças, apesar de distantes, estão se tornando cada vez mais claras. Sim, eu me lembro do mundo, de cada detalhe. E o que eu mais me lembro era de quão assustada eu era. Que bobagem! Viver com medo nunca é viver de verdade. Gostaria que as pessoas que deixo para trás soubessem disso, mas será que faria alguma diferença? Provavelmente não. Sempre vai ter quem encara seus medos e quem foge deles. Eu encarei os meus, e estou aqui agora. Será que esta é a alternativa correta? Não sei. Mas de qualquer forma quero que saibam que sentirei saudade de todos vocês, que fizeram parte da minha vida, e espero que de alguma forma eu possa ter feito diferença nas suas.

Até algum dia.



(Mia Sodré lembra a todos de que a morte é inevitável)



Esta é uma carta fictícia escrita especialmente para o Projeto Bloínques, 48° edição de cartas.



Quer ler mais?



WINK!





ENQUANTO ISSO...



Tuítes para causar no twitter! Lá na seção Diversão do site da CAPRICHO!



E como sempre, tem postagem nova no Blog do Jerri!



E a enquete sobre a OFICINA DE PRODUÇÃO DE CONTEÚDO PRA BLOG acabou e o resultado foi o seguinte:



23% topam pagar os olhos da cara pela oficina!



54% topam pagar contanto que sobre dinheiro para o McDonald's!



22% não pagam nada e se pudessem me roubariam!



Então, a OFICINA deve sair!



Aguarde informações em breve!



domingo, 7 de novembro de 2010

FRUTAS CÍTRICAS - Conto


Eu chupava um limão quando ela apareceu, chupando uma laranja.
Me apaixonei na hora.
Discretamente, joguei-lhe um abacaxi para chamar a atenção.
Ela nem notou. Será que ela não gostava de abacaxi?
Fiquei olhando para ela e sorrindo, tentando demonstrar a minha felicidade, o que era muito difícil, já que eu estava chupando um limão.
Resolvi me aproximar e tentar um papo-cabeça.
- Bom dia – disse eu.
Ela não me respondeu. Tentei algo diferente:
- Os filhos moravam numa casa de bonecas – comentei, sorrindo.
- Não se pode beijar uma caveira, porque ela não tem língua – ela falou, séria, enquanto chupava sua laranja.
- Mas e quanto aquele médico metido a cineasta? – perguntei.
- Eu continuei jogando penas ao ar, mas não adiantou nada. Os espectadores só se chatearam – ela continuou.
- Ah! Yah! Ahnn... Ahh! Yah! Yah! – exclamei, chupando o meu limão que me dava arrepios no céu da boca.
- Olha, eu tô a fim de assistir uns curtas experimentais no Goethe. Vamos? – disse ela, convidativa e lasciva, chupando aquela fruta cítrica.
- Eu não posso. Preciso estar aqui no final.
- Então eu vou com o General.
Então ela foi com o General.
E aqui eu termino esta historinha experimental, me virando para o leitor com meu limão:
- Auf wiedersen!


Jerri Dias, André Gustavo, Rodnério Rosa
Porto Alegre, 1990.


P.S. - Esse conto faz parte de uma série de muitos que eu e meus amigos escrevíamos à 3 mãos nas nossas noites no bar Tutti Giorni. Esse conto surrealista em particular, surgiu a partir de uma ida à uma mostra de filmes experimentais alemães no Goethe Institut.

quinta-feira, 25 de março de 2010

ESPÉCIME Nº 3 - Conto



Pesquisador PSICObioeconomista ATREX classe 23 iniciando relatório 00002 referente ao eSPÉCIME nº 3.

O ATUAL ESPÉCIME, APESAR DE SER O TERCEIRO CAPTURADO, DIFERE DOS DOIS ANTERIORES, AO PRIMEIRO EXAME OCULAR, NOS ASPECTOS FÍSICOS. SALIENTO AS DUAS PROTUBERÂNCIAS PEITORAIS QUE INEXISTEM NESSE ESPÉCIME E A EXISTÊNCIA (INEXISTENTE NOS ANTERIORES) DE UM PEQUENO TENTÁCULO ENTRE OS DOIS MEMBROS LOCOMOTIVOS. PARECE TRATAR-SE DE UM ORGãO VITAL, VISTO QUE O ESPÉCIME PROCURAVA PROTEGÊ-LO COM SEUS MEMBROS SUPERIORES ENQUANTO EMITIA ONDA SONORAS RELATIVAMENTE ALTAS COM SUA CAVIDADE FONÉTICA. NOSSOS LINGUISTAS ESTÃO PESQUISANDO O MAIS RÁPIDO POSSÍVEL PARA DECIFRAR OS FONEMAS DESTA ESPÉCIE. eMBORA POSSAMOS JÁ TRANSCREVÊ-LOS, SEU SIGNIFICADO E PRONÚNCIA NOS SÃO DESCONHECIDOS. NO MOMENTO DE SUA CAPTURA O ESPÉCIME EMITIU AS ONDAS SONORAS “MEU DEUS” E “SOCORRO”. ESSAS ONDAS SONORAS JÁ FORAM REPETIDAS PELOS DOIS ESPÉCIMES ANTERIORES, O QUE LEVA NOSSOS LINGUISTAS A ACREDITAREM QUE SE TRATA, TALVEZ DE UMA ESPÉCIE DE SAUDAÇÃO, COMO NOSSA ESPÉCIE REALIZAVA QUANDO ERA CAPTURADA POR OUTRAS. MAS ISSO AINDA ESTÁ SENDO ESTUDADO. DE VOLTA AO ESPÉCIME...

APÓS ALGUM TEMPO, O ESPÉCIME nº 3 RETRAÍU-SE NO CANTO ESQUERDO DE SEU COMPARTIMENTO AMBIENTALIZADO, PASSANDO A TER OCASIONAIS TREMORES ESPASMÓDICOS ACOMPANHADOS DE SAÍDA DE FLUÍDOS VITAIS PELAS CAVIDADES OCULARES. FASCINANTE...

MAS ERA CHEGADO O MOMENTO DE ESTABELECER CONTATO OCULAR INTÍMO COM O ESPÉCIME, JÁ QUE O PROCEDIMENTO PADRÀO DE OBSERVAÇÀO ESPECTOGRÁFICO JÁ HAVIA ESGOTADO SUAS POSSIBILIDADES.

A MINHA ENTRADA, COMO JÁ ERA ESPERADO, CAUSOU MAIS TREMORES, UM AUMENTO DAS CAVIDADES OCULARES E UMA ONDA SONORA EXTREMAMENTE ALTA POR PARTE DO ESPÉCIME. MINHA FISIOLOGIA EXTERNA O ASSUSTAVA, PROVANDO MAIS UMA VEZ QUE O SENSO ESTÉTICO DESSA ESPÉCIE É PRIMITIVO E TÍPICO DE CONSCIÊNCIAS PRECONCEITUOSAS.

DANDO INÍCIO AO RELATÓRIO ANATÔMICO COMPARATIVO FISIOLÓGICO EXTERNO:
DIFERENTE DOS OUTROS DOIS ESPÉCIMES, Nº 3 POSSUI MUITO MAIS FIBRAS, SENDO ESTAS MAIS EVIDENTES NOS MEMBROS LOCOMOTIVOS E NA REGIãO PEITORAL. já na sua extremidade superior, embora possua mais fibras espalhadas por toda a superfície, no topo da mesma as fibras são menos abundantes e longas que nas dos dois espécimes anteriores. poderia isso ser uma indicação de inteligência? os dois espécimes anteriores eram mais serenos.

EMBORA SEJA DA MESMA ESPÉCIE, COMO REPORTADO ANTERIORMENTE, ESTE ESPÉCIME EM PARTICULAR DIFERE DOS OUTROS DOIS POR POSSUIR OU DESPOSSUIR DADOS ANATÔMICOS VERFICADOS NOS DOIS ANTERIORES. inicio agora sua descrição: a primeira diferença evidencia-se na EXISTÊNCIA DE UM PEQUENO TENTÁCULO ENTRE OS MEBROS LOCOMOTIVOS QUE SÓ NOS LEVA A UMA CONCLUSÃO; trata-se de um orgão de engatamento. OS OUTROS DOIS ESPÉCIMES POSSUÍAM CAVIDADES NO MESMO LOCAL ONDE ESSE POSSUI UM TENTÁCUL O QUE PODERIA SIGNIFICAR QUE ESSA ESPÉCIE PODE FUNDIR-SE COM SEUS RELATIVOS.. a EXISTÊNCIA DE CAVIDADES TRASEIRAS DEMONSTRAM QUE A FUSÃO É POSSÍVEL TAMBÉM ENTRE OS POSSUIDORES DE TENTÁCULo. E OS ESPÉCIMES QUE SÓ POSSUEM CAVIDADES? COMO SE FUNDIRIAM?
OS MEMBROS SUPERIORES POSSUEM TENTÁCULOS RETRÁTEIS EM SUAS EXTREMIDADES QUE PODERIAM SERVIR RELATIVAMENTE PARA A FUNÇãO DE FUSÃO. MAS QUAL O MOTIVO? TRATAR-SE-IA DE UM ORGÃO DE COMUNICAÇÃO? AS CAVIDADES FONÉTICAS APARENTAM UM MAIOR GRAU DE PRATICIDADE EM RELAÇÀO À ISSO. TALVEZ, COMO EM DETERMINADOS ORGÃOS DE OUTRAS ESPÉCIES, ESSE SEJA UM ORGãO DE COMUNICAÇÃO QUE NÃO FUNCIONOU NA EVOLUÇãO DESTA ESPÉCIE E POR ISSO MESMO, ELES ESTEJAM ATROFIADOS. SE ASSIM O FOR, AS OUTRAS DUAS ESPÉCIMES SERIAM SUPERIORES, POIS SEUS ANTIGOS ORGÃOS DE COMUNICAÇÃO JÁ SE INTERNALIZARAM, ENQUANTO QUE O DO Nº 3 AINDA ESTÁ A CAMINHO DISSO.
CABE SALIENTAR TAMBÉM A não existência de protuberância peitorais NO ESPÉCIME Nº 3. embora possua os mesmos pontos sensíveis a estímulo tátil (como verificado nos dois anteriores), a região é quase plana. QUAL SERIA A FUNÇÃO DESSA DIFERENÇA? DE ACORDO COM A LÓGICA DE SUA ANATOMIA, SE A TEORIA DE FUSÃO ESTIVER CORRETA, O ESPÉCIME Nº 3 DEVERIA POSSUIR CAVIDADES PEITORAIS PARA ACOMODAR AS PROTUBERÂNCIAS DOS OUTROS DOIS E, NO ENTANTO, ELE É PLANO. VOLTAREMOS A ESSA QUESTÃO MAIS TARDE...

NO QUE SE REFERE A SUA CARTILAGEM, É HOMOGÊNEA POR TODA A EXTENSÃO DO CORPO E COMO NOS DOIS ANTERIORES, PARECE SER EXTREMAMENTE FLEXÍVEL, EMBORA NEM UM POUCO RESISTENTE. AO PRIMEIRO CONTATO COM NOSSOS EQUIPAMENTOS DE ANALÍSE, ELA ROMPE-SE, LIBERANDO FLUIDOS VITAIS ININTERRUPTAMENTE. PRECISAMOS TER CUIDADO COM O Nº 3, POR ISSO DESTA VEZ O PROCEDIMENTO SE DARÁ NO TOPO DA EXTREMIDADE SUPERIOR, ONDE A RESISTÊNCIA CARTILAGINOSA PARECE MAIOR...

RELATÓRIO ANATÔMICO COMPARATIVO FISIOLÓGICO INTERNO - ANOTAÇÕES FINAIS:

O ESPÉCIME, COMO OS ANTERIORES, DEBATEU-SE E EMITIU ONDAS SONORAS ESTRIDENTES E EXTREMAMENTE INCÔMODAS AO SER LEVADO PARA O EXAME INTERNO. INFELIZMENTE, UM NOVO ERRO DE CÁLCULO CANCELOU O ESPÉCIME Nº 3. O TOPO DE SUA EXTREMIDADE SUPERIOR NÃO ERA TÃO RESsIsTENTE QUANTO DEDUZIMOS E APÓS A PRIMEIRA CAMADA QUEBRAR-SE, UMA GRANDE QUANTIDADE DE FLUÍDO VITAL ESGUICHOU JUNTAMENTE COM PORÇÕES DE CARNE MACIA.

O TESTE PALATIVO REVELOU MAIS TARDE QUE A CARNE SÁIDA DO TOPO DA EXTREMIDADE SUPERIOR É EXTREMAMENTE SABOROSA. prevejo a implantação de um novo mercado alimentício inesgotável para os próximos anos, pois que há bilhões de espécimes para serem comercializados.

ASSIM RELATOU Pesquisador PSICObioeconomista ATREX classe 23.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

DIÁRIO DE BORDO - conto



Atlântico, 14 de agosto de 1916.

A missão foi um sucesso. O Victory afundou ontem, por volta das 23 horas. A maioria estava dormindo. Todos os 360 passageiros e tripulantes morreram. O mar está repleto de destroços. O submarino Wolffkrieg deve me apanhar nestas coordenadas dentro de dois dias. Tenho provisões para três. Salve o Imperador Guilherme II.

Atlântico, 15 de agosto de 1916.

Esta noite escutei gemidos estranhos vindos do sul. Não consegui ver nada. A noite não teve lua. Bebi água demais ontem e hoje por causa do Sol. É muito quente durante o dia e esfria demais à noite. O cobertor que trouxe não é suficiente.


Atlântico, 16 de agosto de 1916.

O Wolffkrieg virá hoje. A qualquer momento poderei divisá-lo no horizonte. Uma barbatana de tubarão emergiu à 10 metros do meu bote e mergulhou. Já fazem duas horas. Deve ter ido embora. Será que toda aquela carne inglesa não os saciou?

Atlântico, 17 de agosto de 1916.


O Wolffkrieg não veio. Deve ter acontecido algum imprevisto. Deve chegar hoje. Estou queimado de Sol. Minha pele dói e coça. Não posso mais encostar nas bordas do bote. Fico coberto a maior parte do tempo. De vez em quando me molho para me refrescar, mas não gosto de colocar a mão na água por causa dos tubarões. A água está acabando e só me sobrou um pedaço de salsicha.

Atlântico, 18 de agosto de 1916.

Tenho um convidado. É um sobrevivente do Victory. É um compatriota e tem o mesmo nome, Jurgen. E pensar que quase atirei nele quando o vi agarrado num destroço... Será bom ter companhia. A comida e a água acabaram e a merda do Wolffkrieg não apareceu!

Atlântico, 19 de agosto de 1916.

Ontem vimos dois tubarões. Não apareceram mais. Jurgen e eu contamos piadas de ingleses para aliviar a tensão. Não temos linha para pescar. Meu corpo tá todo dolorido das queimaduras.

Atlântico, 20 de agosto de 1916.

Inexplicavelmente Jurgen sabe que fui eu que explodi o navio. Como? Eu não contei. Mesmo um compatriota alemão não poderia saber que sou um sabotador. Perguntou se eu não estava com remorso. Disse que não sabia do que estava falando, que era tão vítima quanto ele. Cadê a porra do submarino? Será que ele estava com a família?

Atlântico, 21 de agosto de 1916.

Estou com fome e sede. Vomitei boa parte da água salgada que tomei há pouco. Acho que vou ficar doente. Ontem à noite vimos fumaça de navio. Queria chamá-lo, mas não tinha jeito. Comecei a chorar e Jurgen ficou só olhando. O Wolffkrieg deve ter sido afundado. É por isso que ele não veio. Acho que vamos morrer. Jurgen continua com suas acusações. Perguntou se eu gostaria de ter minha família mandada pelos ares como fiz com os ingleses. Como ele sabe que tenho família? Eu o mandei tomar no cú e disse que távamos numa guerra. Ele disse: "E daí?". Jurgen é louco. Se continuar assim vou ter que matá-lo. Tenho medo de ficá sozinho.

Porra do Atlântico, 22.8.16

Estou com febre e não quero escrever muito. Jurgen continua falando baboseiras da guerra e das pessoas que matei. Quero fazer ele calar a boca mas estou fraco demais. Minhas mãos tão tremendo. Que merda!

água pra caralho, 23.8.16.

Decidi matar Jurgen. Tô doente e ele não pára de falá nos mortos. Ele sabe até o nome dos navio que afundei. Cheguei a conclusão que ele é um traidor e tem que sê morto. Um verdadeiro alemão não acusa um soldado da pátria mãe por cumprir seu dever.

Diário de bordo do Wolffkrieg, 25 de agosto de 1916.

Encontramos ontem o corpo do tenente Jurgen Ludendorff em um bote à quase 15 milhas do ponto de encontro. A solidão, aliada a falta de água e comida devem tê-lo levado ao suicídio. Embora no seu "diário de bordo" verifique-se a presença de outro homem, não encontramos nenhum indício dele no bote. E mesmo que Jurgen possa tê-lo feito atirar-se na água para depois matá-lo com a pistola, é de estranhar que a pistola tivesse todas as balas, só faltando a que o tenente Ludendorff usara em si mesmo. Apesar do ato reprovável, recomendarei uma medalha por seus valorosos serviços.


Porto Alegre, maio de 1993.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

DIA DE CHUVA - micro-conto



Da minha janela eu vejo a chuva caindo. Eu vejo papéis flutuando tediosamente ao sabor do vento. A chuva tenta fazê-los voltar ao chão, mas esse não é o desejo de Fujin. Atrás de mim, um mar de computadores. À minha frente, um oceano de pedra e concreto. E lá embaixo, um caudaloso rio de guarda-chuvas. Um rio negro que parece não ter fim. Não sei mais o quê fazer. Ou o quê dizer. Subo, então, no parapeito da janela e grito.

Como se combinados, o mar de computadores cessa suas ondas de bytes juntamente com o sopro de Fujin. Os papéis congelam entre o final do vôo e o início da queda. O rio de guarda-chuvas pára de correr. E olham para mim. Todos tentando ver. Identificar-me com algum parente, amigo, conhecido talvez. Eu deixo que olhem para meu rosto. Vou até deixar que olhem bem de perto. Vou me encontrar com eles. Todos aqueles indiferentes guarda-chuvas.

quinta-feira, 26 de março de 2009

DANÇA - micro-conto

Espetáculo de Dança "Instruções para Abrir o Corpo em Caso de Emergência".
Foto: Luciana Menna Barreto


Enquanto danço sobre o chão escaldante, meu espírito sai de meu corpo e lembra de como era quando as coisas eram. Antes dos sóis. Antes do calor. Antes de estar dançando sobre este chão escaldante.

Abril, 1989

terça-feira, 12 de agosto de 2008

COM OS PÉS NO CHÃO - conto


Eu deveria ter nove anos quando aconteceu a primeira vez. Após essa, seguiram-se centenas de outras, sendo que talvez a primeira centena tenha sido praticamente igual. Eu corria na calçada em frente à minha casa e após alguns metros me atirava no ar como se para dar um mergulho. Mas não havia piscina, apenas o chão de laje dura o qual meu corpo jamais tocava. Pois milímetros antes de tocar o chão, eu parava no ar, e levitando, ia subindo e avançando em câmera lenta pela rua vazia até chegar a altura da copa das árvores.

Alguns anos depois, encontrava-me em uma rua escura e mal iluminada com alguns amigos. Súbito, por um motivo fútil qualquer, decidi parar de caminhar e ergui-me alguns metros do chão ficando a companhar meus assombrados amigos pela altura dos postes. A partir dessa época comecei a adquirir um controle cada vez maior sobre isso. Diferentemente da minha infância, quando parecia ser levado pelo vento ou seja lá o que fosse, eu descobri que com um pensamento a lei da gravidade deixava de existir para mim e que com leves inclinações do meu corpo conseguia mudar a direção, não ficando mais limitado a voôs retos. Até mesmo a altura e a velocidade que eu conseguia atingir eram agora comparáveis as de qualquer jato. As cidades tornavam-se pontos de luz e o horizonte arredondava-se, mostrando a curvatura do planeta. Os supersônicos rasantes entre os prédios da cidade eram tantos que mal conseguia enxergar por onde estava indo.

Desse modo, como um deus, eu flutuava, voava, disparava pelos céus até que o míssil-despertador me acertasse, fazendo-me despencar pesadamente na cama.

E assim, sentindo o peso da mortalidade espalhar-se por meu corpo e mente, eu me levanto colocando os pés no chão frio e vou ao banheiro escovar os dentes.

Junho, 1999

quarta-feira, 14 de maio de 2008

A CHAMADA - conto

Imagem de Marte divulgada pela NASA em janeiro deste ano.


A porta abre.
Uma prateleira com vários livros. Livros sobre antropologia, sociologia, filosofia, história.
Outra prateleira. Artefatos não identificáveis dentro de plásticos. Alguns se assemelham a rostos. Inumanos. Outros parecem simples rochas.
Um celular começa a tocar.
Uma terceira prateleira. Uma câmera fotográfica e outra de vídeo. Tapes, rolos de filmes e fotos espalhados desordenadamente ao lado.

Segundo toque.
Ao lado da estante, uma mesa onde papéis timbrados de orgãos governamentais e anotações diversas acumulam-se. Um livro russo onde a única palavra identificável na capa é KGB destaca-se, encostado entre a mesa e a parede. Na parede branca em frente à mesa há mapas cartográficos alienígenas. O maior é de Marte. Perto do Monte Olympus há uma marca de caneta hidrocor e uma observação em forma de interrogação: “Vida?” No menor vê-se diversas marcas sob a superfície da Lua onde a palavra “Água” repete-se diversas vezes.
Terceiro toque.
Um pequeno abajur sobre a mesa aponta sua luz para a foto de um objeto-voador-não- identificado. No notebook um texto transcreve as palavras de Neil Armstrong falando de seu avistamento de uma base alienígena no lado escuro da Lua. Ao lado do notebook, uma xícara de café fumegante pela metade.
Mais livros, CIA, Mossad, sociedades secretas e o Pêndulo de Foucault estão abertos e marcados em determinados parágrafos. Cinzas de cigarro espalham-se sobre as páginas dos livros.
Quarto toque.
O cinzeiro quebrado no chão deixou espalhar cinzas e pontas de cigarro por todo o chão. Por cima da sujeira está caída a cadeira ao lado do corpo do repórter. A fina linha que corta seu pescoço deixa escapar o sangue que forma a grande poça rubro-negra que empapa seu cabelo.
Quinto toque.
Um homem de terno e luvas se abaixa sobre o corpo, retira o celular do bolso do casaco de repórter, desliga-o e joga-o displicentemente ao lado do corpo.
A porta fecha.

Fevereiro, 1999

quinta-feira, 24 de abril de 2008

CONVERSA DE BAR - conto


Era um pequeno bar-restaurante onde sempre se encontravam. Eram da casa. Sérgio, Mário e Gérson. Três amigos da adolescência. Adolescência que já fora ultrapassada há duas décadas. Conversavam muito, sempre com brincadeiras na ponta da língua, sempre sorrindo, sempre contentes. Até o dia em que Ela se sentou junto à eles, ocupando a quarta cadeira, sempre desocupada.

Um sentimento de mal-estar geral tomou conta de todos à mesa, com exceção da jovial e bela garota. Os sorrisos fecharam-se e as brincadeiras cessaram. Ela não era bem vinda entre eles. Mário tentou distrair os outros e a si mesmo daquela presença perturbadora, mas ela continuou ali, persistente como a própria Insistência, sua prima.

Quando todos notaram que ela não sairia fácil do local, renderam-se às suas estranhas perguntas. Ela perguntou se eles gostavam de suas vidas, se elas eram boas ou ruins, se eram justas ou injustas.

Não havia queixas contra a Vida, responderam eles. Sérgio era feliz. Homossexual não assumido, escondia de Gérson e Mário sua preferência por homens para não arriscar perder amigos de tão longa data. Mário era feliz. Com estranhas manchas pelo corpo todo, exceto as extremidades, tinha vergonha e medo dessa doença que nem seu médico sabia dizer o que era. Gérson também era feliz. Paralítico da cintura para baixo há vinte e três anos, via freqüentemente sua esposa sair para visitar seus amantes.

Ela não acreditou. Disse que assim fosse, ela não estaria sentada entre eles. Desgosto mostrara o local à Ela. Lhe indicara até mesmo a mesa. Os amigos reagiram. Desgosto estava enganado. Afirmaram e reafirmaram sua felicidade. Gérson até arriscou um palpite: “Não teria sido Humor a pregar-lhe uma peça?”

O palpite foi considerado, embora com certa suspeita. “Talvez não tenha sido Desgosto, como você disse”, sussurrou. Um sussurro vindo de muitos milhares de séculos atrás.

Ela levantou-se e caminhou lentamente até a saída. Os olhares dos três a acompanharam até que Ela sumisse de suas vistas. Prestaram atenção para ver se não escutariam o som de suas asas, mas nada escutaram. “Ela é silenciosa”, observou Gérson. Os demais assentiram com a cabeça.

Depois do ocorrido nunca mais se viram.

Janeiro, 1992

quinta-feira, 17 de abril de 2008

O JARDIM DAS ÁRVORES EMPALHADAS - micro-conto


Aquelas criaturas que durante a noite beijam-se e trocam carícias no Jardim das Árvores Empalhadas.

As criaturas que durante a noite nada podem fazer a não ser observar as criaturas que beijam-se e trocam carícias no Jardim das Árvores Empalhadas.

Porto Alegre, 1990