
Um sentimento de mal-estar geral tomou conta de todos à mesa, com exceção da jovial e bela garota. Os sorrisos fecharam-se e as brincadeiras cessaram. Ela não era bem vinda entre eles. Mário tentou distrair os outros e a si mesmo daquela presença perturbadora, mas ela continuou ali, persistente como a própria Insistência, sua prima.
Quando todos notaram que ela não sairia fácil do local, renderam-se às suas estranhas perguntas. Ela perguntou se eles gostavam de suas vidas, se elas eram boas ou ruins, se eram justas ou injustas.
Não havia queixas contra a Vida, responderam eles. Sérgio era feliz. Homossexual não assumido, escondia de Gérson e Mário sua preferência por homens para não arriscar perder amigos de tão longa data. Mário era feliz. Com estranhas manchas pelo corpo todo, exceto as extremidades, tinha vergonha e medo dessa doença que nem seu médico sabia dizer o que era. Gérson também era feliz. Paralítico da cintura para baixo há vinte e três anos, via freqüentemente sua esposa sair para visitar seus amantes.
Ela não acreditou. Disse que assim fosse, ela não estaria sentada entre eles. Desgosto mostrara o local à Ela. Lhe indicara até mesmo a mesa. Os amigos reagiram. Desgosto estava enganado. Afirmaram e reafirmaram sua felicidade. Gérson até arriscou um palpite: “Não teria sido Humor a pregar-lhe uma peça?”
O palpite foi considerado, embora com certa suspeita. “Talvez não tenha sido Desgosto, como você disse”, sussurrou. Um sussurro vindo de muitos milhares de séculos atrás.
Ela levantou-se e caminhou lentamente até a saída. Os olhares dos três a acompanharam até que Ela sumisse de suas vistas. Prestaram atenção para ver se não escutariam o som de suas asas, mas nada escutaram. “Ela é silenciosa”, observou Gérson. Os demais assentiram com a cabeça.
Depois do ocorrido nunca mais se viram.
Janeiro, 1992