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terça-feira, 29 de agosto de 2017

RÍDICULO POLÍTICO - Livro



Por Leandro Fontoura para o site ZH.

Um espectro ronda a política – o espectro do ridículo político. Esse fenômeno, que se revela em elogios à tortura no Congresso brasileiro, no governo de Donald Trump nos Estados Unidos e em outras manifestações, ganha uma análise consistente no mais novo livro de Marcia Tiburi, que autografa a obra nesta segunda (3) em Porto Alegre.

A filósofa, que no ensaio anterior havia se dedicado ao fascismo, mostra-se agora preocupada com um contexto em que a regra é não tratar a política com seriedade. Ao longo das mais de 200 páginas de Ridículo Político, Marcia expõe uma cadeia de fenômenos que, na sua visão, tornam o cidadão um ser apático e submisso e colocam a democracia em risco. O argumento é construído a partir de conceitos simples, para que possam ser amplamente compreendidos.

O livro trata de vergonha alheia, elite brega, cidadão otário, madamismo (culto à vida de madame), filosofia do rolê, falação de merda, minotaura, Valesca Popozuda, ipanemismo (relativo ao bairro de classe média carioca) e esteticomania. As teses são apresentadas em cadeia, uma levando à outra, em capítulos curtos. Essa opção da autora por termos populares e tópicos enxutos talvez tenha como influência sua experiência na mídia. Acostumada com programas de TV, entrevistas e palestras disputadas, Marcia é muitas vezes reconhecida como pensadora pop, integrante de uma turma que inclui Leandro Karnal, Luiz Felipe Pondé e Mario Sergio Cortella.

Mas o livro mostra uma ensaísta extremamente dura em relação à mídia e à sua moldura, o capitalismo. A obra dialoga com Theodor Adorno e Max Horkheimer, expoentes da Escola de Frankfurt e primeiros críticos, ainda na década de 1930, da indústria cultural, máquina capaz de transformar a arte em uma linha de produção de mercadorias. O francês Guy Debord, estudioso da sociedade do espetáculo, completa o trio de teóricos que inspiram a autora.



A filósofa mais influente da mídia brasileira contemporânea.


No final dos anos 1960, Debord apontou que, na sociedade capitalista, as relações sociais passaram a ser mediadas pelas imagens. Para ele, a realidade, o cotidiano das pessoas, é influenciada pela lógica mercadológica, borrando as fronteiras entre essência e aparência. A partir daí, Marcia sugere que, se a questão central hoje é aparecer, torna-se necessário acabar com os constrangimentos humanos que prejudicam a realização dessa regra social.

O primeiro efeito é o fim da vergonha, resultado que permite ao ridículo sair do armário sem qualquer inibição. O ridículo, aquilo que inicialmente não deveria ser visto por causar embaraços e desprazer, torna-se, assim, normal e estratégia de sobrevivência no mundo das imagens, da exposição total e do chamar atenção a qualquer preço. "Criamos uma espécie de dialética perversa entre amar a própria imagem, sermos vistos e acreditarmos que isso assegura, de algum modo, nosso existir", descreve a filósofa. Essa dinâmica, continua a autora, perpassa, nas diferentes classes sociais, diversas situações da vida cotidiana, como a necessidade de ostentar o próprio gosto, ouvindo música alta em local público, por exemplo. Há ainda o narcisismo nas redes sociais, as selfies, a plastificação do corpo e o culto ao exercício físico no qual não é a saúde a principal preocupação, mas sim a "servidão à imagem".

Marcia mostra como o ridículo passou a ser instrumentalizado na política. A política, transformada pela racionalidade publicitária, deixa de ser vista como uma "construção universal". O espetáculo deturpa a política e os direitos de aparecer, de se expressar, de representar e de ser representado. Esse contexto abre espaço ao bufão, o político que, utilizando o ridículo como capital eleitoral, brinca nos momentos em que deveria haver seriedade e encanta quem já não vê a política como o diálogo que nos torna humanos. O bufão é um personagem quase de ficção, simpático e populista, que, por tanta ¿falação de merda¿, não parece estar dizendo a verdade. Idiotizados pela estetização da política e pelo sistema neoliberal, os eleitores não acreditariam que os líderes que apoiam sejam de fato fascistas, homofóbicos e machistas. Se não levam a sério quem se propõe a liderar, também lavam as mãos de qualquer responsabilidade nas escolhas. Para Marcia, há nisso um risco altíssimo: "Assim, sem ter para onde ir, desarvorados, apatetados, muitos preferem cancelar a política, tomando-a como aquilo que faz mal, quando, na verdade, a reinvenção da experiência política seria a única chance de produzir algo de bom, enquanto seres sociais, seres relacionados uns aos outros, que, necessariamente, terão de compartilhar o mesmo espaço. Ou consumir-se em guerra".

TRECHO:
"O termo ridículo é usado tanto para falar de algo insignificante, daquilo que não faria diferença, quanto para dar sinal de uma cena escandalosa. Neste livro, quer-se compreender seu potencial intimamente ligado, em nosso tempo, ao que podemos denominar o momento publicitário da política, que muito tem contribuído para a aniquilação de sua própria ideia como algo positivo. O problema é que a política não é algo que se destrói, mas algo que se transforma, e, nesse caso, podemos dizer que o ridículo político é sua deturpação. O que vem a ser política na era da racionalidade publicitária é a nossa questão. O ridículo político é um efeito da deturpação da política na era do espetáculo; é a deturpação do direto a aparecer, bem como do direito à expressão, do direito de representar e ser representado. Ridículo político seria, portanto, a forma visível da crise do político enquanto o poder o utiliza justamente para acobertar a crise."

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O TOQUE MÁGICO - Literatura

 Capa da edição dos anos 80.


F. Paul Wilson escreveu este Toque Mágico (The Touch) em 1985. Conheci Wilson na época nos anos 80, época em que devorava livros (bons tempos em que eu tinha tempo pra isso) e esse foi o terceiro livro que li dele.

E apesar do tema parecer não muito emocionante (um médico que cura milagrosamente com apenas o toque de sua mão), Wilson consegue levar a trama à condição de suspense sobrenatural onde o leitor é quase que incapaz de largar o livro para ir dormir. Muitas noites seus livros me fizeram ficar acordado além da hora. Eu particularmente, o acho superior à Stephen King.

No livro, após contato com um mendigo, Dr. Alan Bulmer adquire o poder de curar com o toque de sua mão, mas à medida que vai usando seus poderes, sua vida pessoal, emocional e profissional começam a se deteriorar. Até onde ir com esse poder sem ser destruído por ele? E de onde surgiu tal poder e o que ele significa? Intrigado, resta ao personagem e ao leitor descobrir isso aos poucos através da pena mágica de Wilson.

Quando eu li, o livro era um romance isolado. Após alguns anos, Wilson adicionou finais extras aos seus livros para criar interligações entre eles e fazer a série O Ciclo do Inimigo. Não se preocupe com isso e leia como se fosse um livro só, pois ele funciona muito bem assim.




Versão atual com a adição do final extra.



segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O FIM DA INFÂNCIA - Livro



Escrito em 1953 pelo saudoso Arthur C. Clarke, O Fim da Infância foi um dos livros que marcou minha adolescência. A história fala de uma tomada relativamente pacífica da Terra por uma frota extraterrestre de seres denominados Senhores Supremos. Com o objetivo de dar um jeito no caos político e social do planeta, eles acabam com os governos, os exércitos e criam uma utopia planetária. Uma das cenas mais divertidas do livro é quando uma de suas naves paira sobre uma tourada para fazer com que todos os presentes sintam as dores das estocadas no touro. Mas o grande mistério que cerca essa raça alienígena é que ela nunca se mostra aos humanos, o que gera todo tipo de especulação por parte da humanidade. Religiosamente irônico, divertido e com muito espaço para a filosofia e reflexão sobre os caminhos da raça humana, esse é um clássico da FC que Kubrick tentou filmar antes de 2001, mas os direitos haviam sido comprados por outro diretor.

Mas depois de inúmeras tentativas de adaptação desde os anos 60 , uma mini em 3 episódios foi ao ar em dezembro de 2015 e as críticas parecem positivas.



terça-feira, 16 de junho de 2015

A HISTÓRIA DO LADRÃO DE CORPOS - Livro



Quarto volume de AS CRÔNICAS VAMPIRESCAS de Anne Rice, o hedonista vampiro Lestat retorna para confrontar-se com sua nova mortalidade. Apesar da premissa da troca de corpos e mentes ser muito utilizada em comédias, a autora Anne Rice tenta um viés mais dramático ao realizar a troca entre um vampiro imortal arrogante e um feiticeiro mortal sem escrúpulos. Como os outros romances da saga, os personagens principais se debatem entre alimentar seus instintos mais primordiais e obter alguma redenção moral ou espiritual. A constante inclusão da mitologia cristã em detrimento de outras mitologias reflete as crenças pessoais da autora, que passou de católica apostólica romana à atéia à, até o momento, uma crente independente em Jesus.  Recomendável para menores de 30 anos que ainda sonham em ser vampiros. 

  

O PARQUE DOS DINOSSAUROS - Livro




Um dos melhores escritores de ficção científica contemporânea, o falecido autor Michael Crichton  conseguiu colocar o gênero várias vezes na lista de best-sellers de vários países. Sempre evitando os clichês da FC, como aliens e viagens espaciais, Crichton optou por trabalhar a FC de antecipação, mas no mundo atual. Então, estranhos vírus vindos do espaço (O ENIGMA DE ANDRÔMEDA), viagens no tempo (LINHA DO TEMPO) e grandes primatas desconhecidos (CONGO) foram alguns dos temas explorados pelo autor, que cercava-se das teorias mais recentes, auxiliado por todo tipo de especialistas nas áreas que explorava em seus livros.

Não foi diferente com O PARQUE DOS DINOSSAUROS, onde ele trabalha com criatividade e riqueza de detalhes a genética, a Teoria do Caos e a paleontologia necessária para dar verossimilhança a extraordinária aventura de trazer dinossauros de volta à vida. Feito que cientistas de hoje estão tentando reproduzir utilizando de engenharia genética reversa.  Diferente do filme, com forte apelo infantil, o livro é bem mais fascinante, violento e realista.

Compre no Estante Virtual.

Trailer do filme




ENTREVISTA COM O VAMPIRO - Livro



Escrito em 1976 e publicado no Brasil com tradução de Clarice Lispector (o que melhorou a prosa da autora Anne Rice), o livro só faria sucesso mesmo dez anos depois, com o lançamento da seqüência O VAMPIRO LESTAT e a consequente adaptação de ENTREVISTA... para os quadrinhos em 1991 e para o cinema em 1994.
Neste primeiro volume, o leitor conhece o atormentado Louis, o hedonista Lestat e a cruel Claudia, uma vampira eternamente presa no corpo de uma menina de 5 anos. Rice renova o gênero fazendo o leitor acreditar que vampiros realmente poderiam existir e estão entre nós graças ao excelente artifício de colocar um jornalista moderno entrevistando Louis, que narra sua história ao longo dos últimos 200 anos. Antagonizando os vampiros por conta de suas diferentes visões de mundo, Rice trabalha os conflitos religiosos e filosóficos de seus atos. Mas longe de ser um tratado sobre as raízes do Mal, a obra é uma grande aventura pelo submundo sobrenatural dos vampiros e não é de admirar que tenha fascinado tantos jovens adultos e criado uma vampiromania andrógina nos anos 90. 

E no site do Submarino, frequentemente existem ofertas de todos os livros da série CRÔNICAS VAMPIRESCAS com descontos de até 80%. Vale a pena dar uma olhada.


Trailer do filme


sábado, 10 de janeiro de 2015

O QUE EU ESTOU FAZENDO AQUI...(?) - Crônica



Sinceramente? Vários motivos: aumentar meus horizontes; ser forçado a escrever mais; diploma; ter uma profissão definida; conhecer outras pessoas com as quais possa conversar sobre literatura e cultura em geral; fazer amigos; deixar minha mãe feliz por ter um filho universitário; a possibilidade de pedir por uma bolsa no exterior e ter direito a prisão especial para o caso de um dia precisar...
   
Alguns dos objetivos  já foram conquistados, outros estão sendo. Já fiz boas amizades com as quais consigo conversas interessantes e minha mãe está contente. Quanto ao resto, estou na dependência do futuro. Minha atual angústia, ou talvez fosse melhor dizer ansiedade, é no quesito “aumentar meus horizontes”. Uma professora amiga minha graduada nessa mesma universidade, certa vez me disse: “Se um dia tu quiser deixar de gostar de ler, entra pra Letras.” Uma afirmação que agora faz algum sentido para mim. Os textos teóricos que certas cadeiras nos fornecem, dissecam tanto e tão friamente certas obras que eu chego a pensar se aqueles teóricos realmente gostaram das obras que leram ou se eles simplesmente tem tesão por destrinchar textos, dando importância secundária ao prazer de ler; a obra em si. Um recente acontecimento me deixou bastante chateado, quando no momento em que eu estava lendo alguns contos de Dickens, me peguei analisando o conto sem sequer tê-lo acabado. Isto acabou me tirando do ritmo da história, deixando-me distante e conseqüentemente, sem o prazer da leitura.
   
Bem, mas o motivo de eu estar falando isso tudo é que sou aspirante a escritor, sinto falta de uma cadeira de produção literária e de ler livros. A cadeira de produção textual do primeiro semestre talvez tenha sido boa para quem não está acostumado a escrever, mas para alguns de nós ela só serviu para nos obrigar a escrever textos com temas um tanto bobocas, mas que buscamos driblar com nossa criatividade. Devo confessar que alguns foram um desafio interessante, outros pura chatice. Mas de qualquer forma, faltou-nos um “feedback” maior por parte da professora, que carecia de sensibilidade e mesmo, de certa cultura literária. Não que eu possua muitos conhecimentos nesta área, mas embora não tendo lido centenas de autores, pelo menos já li algo sobre os próprios e suas obras.  Quanto ao fato de “ler livros”, quero dizer ler livros por prazer, ou pelo menos ter a oportunidade de ter prazer lendo os livros indicados pelos professores. Infelizmente, o problema quantidade de livros/tempo de leitura inviabiliza esta oportunidade e só o que parece restar é a análise fria e obrigatória das obras.

Confesso que fiquei desapontado e embasbacado quando ouvi professores recomendando a leitura de obras em grupos (cada um lê um capítulo!) ou então indicando quais capítulos deveriam ser lidos (como se os outros de nada importassem!). Isso, simplesmente para cumprir com o programa estabelecido e fazer a análise ou teste sobre a obra o mais rápido possível. Acostumado a ler livros de uma orelha à outra, tentei no princípio, continuar com esse hábito. Algumas vezes logrei êxito, mas estou perdendo cada vez mais batalhas e já deixei para trás pelo menos cinco livros tendo lido não mais que 10% deles. Detesto largar livros incompletos! Somente quando acho-os ruins, e só fiz isso duas vezes até hoje.
   
O fato de também ter diversos outros interesses extra-universidade e também trabalhar dividem o tempo e o empenho que poderia dedicar a mesma se eu fosse como boa parte dos alunos. Meu interesse por cinema e meu recente pequeno sucesso com um filme, estão me fazendo voltar boa parte de meus esforços em projetos para novos filmes. Felizmente, isso não deixa de estar conectado com a escrita, já que escrevo roteiros tanto para os filmes quanto para histórias em quadrinhos (outro projeto).
   
Desse modo, o que eu estou fazendo aqui é tanto algo que eu posso responder  simples e objetivamente - como fiz no primeiro parágrafo -, quanto algo subjetivo e um tanto vago que tomou vários outros parágrafos. Para minha sorte e provavelmente sua também, a questão só era pertinente à faculdade de Letras.  


Porto Alegre, setembro de 1999.
 
 

O CAPOTE - Literatura



Da coleção L&PM Pocket, que também conta com o conto O RETRATO, este livro traz duas ótimas amostras literárias do talento de Nicolai Vassilievitch Gogol, escritor ucraniano que plantaria as bases da literatura moderna russa. Para quem não sabe, os escritores russos do século XIX são considerados os grandes desbravadores da psiquê humana através de seus personagens extremamente humanizados, estilo que acabou sendo difundido através de toda a literatura ocidental. Mas poucos atingiram o nível de excelência de Gogol, Dostoeivski, Tolstoi ou Tchecov.

Em O CAPOTE, um pobre funcionário público consegue, a muito custo, comprar um capote digno de enfrentar o inverno russo, mas ele é roubado no mesmo dia de sua compra. Segue-se então, o desespero para recuperar sua aquisição com estranhas conseqüências.

Em O RETRATO, um estranho quadro desperta a perversidade e os piores sentimentos nas pessoas que o miram. Um conto sobre a perseguição da riqueza e da fama a todo custo que se enquadra muito bem na sociedade atual.


Uma edição especial para distribuição gratuita pela Internet, através da Virtualbooks, você encontra no link abaixo.

O CAPOTE

domingo, 20 de julho de 2014

F DE FOGUETE – Literatura



Ray Bradbury (1920 - 2012) fez parte da sagrada trindade dos escritores de ficção científica do século XX. Junto com Isaac Asimov e Arthur C. Clarke, ele ajudou a FC a atingir um status literário adulto e maduro. E se a FC lhe parece um universo asséptico, frio e sem alma, Bradbury é o escritor que vai lhe mostrar o lado humano, lírico e onírico do gênero. Quando Spielberg realizou CONTATOS IMEDIATOS DO 3º GRAU e E.T., alguns críticos o chamaram de “o Ray Bradbury” do cinema. Nesta antologia de contos, Bradbury nos faz voltar ao tempo em que éramos astronautas, enfrentávamos dinossauros e quando um simples par de tênis novos nos fazia querer disparar em uma corrida. A mais pura nostalgia do passado, do presente e do futuro em grandes pequenos contos.

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sábado, 12 de abril de 2014

O POBRE DE DEUS - Literatura



Capa da edição do Círculo do Livro.


Fazem 20 anos que li este livro e como estou sem tempo para escrever um resenha decente sobre ele, reproduzo a ótima crítica de Antonio Gonçalves Filho para a revista Época.

*****

O santo por um ateu

Kazantzákis, do polêmico A Última Tentação de Cristo, revira a vida de São Francisco de Assis.

A vida de São Francisco de Assis (1182-1226) já foi contada das mais variadas maneiras por cineastas como Roberto Rosselini, que fez dele um mártir, e Franco Zeffirelli, que o transformou num hippie. Entre o realismo do primeiro e a fantasia do segundo existe um abismo que só a literatura foi capaz de transpor. Particularizando, apenas um escritor polêmico como o grego Nikos Kazantzákis (1883-1957), autor de A Última Tentação de Cristo, poderia ter escrito O Pobre de Deus, biografia romanceada do santo italiano que nasceu rico, livrou-se das roupas de seda, dançou nu na praça principal de Assis, falou com pássaros e peregrinou até seus pés sangrarem e seus olhos ficarem cegos. Kazantzákis, excomungado pela Igreja Ortodoxa Grega, atormentado pelas idéias de Nietzsche e Bergson, marxista estudioso do budismo, era mesmo o nome para a difícil tarefa de explicar personalidade tão complexa.

Apesar de contada por um mendigo que segue Francisco e se torna monge, essa história tem como narrador o próprio Kazantzákis, transformado no etílico irmão Leo. O livro começa à beira do leito de morte do santo. O companheiro de jornada recorda as privações pelas quais passaram juntos, as dúvidas sobre a iluminação do amigo, o carisma e o confronto com a autoridade paterna ao renunciar à riqueza como um presente satânico e abraçar a vida simples. Modelo do homem que supera suas limitações para agradar a um Criador que parece fora deste mundo, Francisco é visto pelo escritor ora como o engraçado bufão de Deus, ora como um trágico cordeiro, marcado para mudar o mundo não por seu comportamento exemplar, mas, antes, por seus excessos. Kazantzákis elege-o como um profeta da não-violência muito antes de Gandhi.




Ao contrário dos dois, o italiano e o indiano, o grego foi um profeta sem esperança. Em seu túmulo mandou inscrever um epitáfio revelador: 'Nada espero. Nada temo. Sou livre'. Surpreende, portanto, a ausência desse sentimento niilista em O Pobre de Deus. O tema invariável de Kazantzákis, mais conhecido pela versão filmada de seu livro Vida e Façanhas de Aléxis Zorba (no cinema, Zorba, o Grego), sempre foi o da luta do homem com seu Criador, seja para não cumprir sua vontade (em A Última Tentação de Cristo), seja para mostrar que um mundo dependente de paixões e crucificações está irremediavelmente condenado. O epitáfio do grego é propositalmente ambíguo, mas recorre à essência do pensamento budista, a do homem que se esvazia para atingir a iluminação. Kazantzákis, que pôs Lênin, Cristo, Buda e Nietzsche no mesmo panteão, morreu ateu. Antes, disse que não era Deus quem iria nos salvar, mas sim nós a Ele, 'lutando, criando e transfigurando a matéria em espírito'. Nessa cruzada a serviço da transcendência, O Pobre de Deus, escrito em 1953, pode ser comovente para alguns e tremendamente perigoso para quem tem medo de literatura forte, produzida à beira do abismo.

Antonio Gonçalves Filho

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segunda-feira, 3 de março de 2014

O ANALISTA DE BAGÉ - Literatura

Capa da edição de 1980.


Um dos maiores personagens criados por Luis Fernando Veríssimo em seus muitos livros de contos, o Analista de Bagé é um psicanalista gaúcho grosso que acha a maioria dos traumas de seus pacientes uma frescura e desenvolveu a famosa terapia do joelhaço, que consiste nisso mesmo que você está pensando. Ele diz e faz o que a maioria dos terapeutas gostaria de fazer com seus pacientes ;-)  E um joelhaço bem dado faz a maioria das pessoas perceberem que seus problemas são bem menos dolorosos do que elas imaginavam.

O personagem fez tanto sucesso que teve montagens no teatro e até um álbum de quadrinhos ilustrado pelo excelente Edgar Vasquez. Além de vários contos com o personagem, a edição vem acompanhada de diversos outros publicados em jornais e revistas do país em 1980.


A versão em quadrinhos de Edgar Vasquez.


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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

ENCONTRE-ME NO NECROTÉRIO – Livro



O autor

Ross McDonald (1915 – 1983) ficou famoso por seus livros de detetive onde ele aprofundava o drama psicológico de seus pesrsonagens, o que lhe garantiu um lugar de honra no panteão dos escritores desse gênero.


Sinopse

Uma criança é sequestrada e o agente de condicional Howard Cross acaba envolvido na busca pelo garoto. Durante a investigação, muito segredos familiares vêm a tona assassinatos viram rotina.

A obra

Herdeiro de Dashiell Hammet e Raymond Chandler, Ross MacDonald lançou este livro em 1953. Apesar de já ter escrito dois romances com o detetive particular Lew Archer, nesse o protagonista é Howard Cross, um agente de condicionais que se vê envolto na usual trama envolvendo uma bela mulher, gente poderosa, dinheiro, sequestro e assassinatos. Mas diferente de seus antecessores literários hard-boiled, Cross é alguém que ainda acredita na humanidade e não tem o nível de sarcasmo e cinismo que são a marca característica de Sam Spade e Philip Marlowe. Apesar de serem atributos literários divertidos para quem escreve e lê, o realismo e a humanidade dos personagens fica comprometida com o abuso desse recurso, artifício que MacDonald tenta evitar, fazendo com que seus personagens sejam mais críveis e com quase tantas camadas emocionais quanto a trama que engendra.

Trecho

Sam encontrou a pasta que procurava e abriu-a sobre a mesa. Vi o rosto do morto pela primeira vez. Devia ter sido jovem e bonito, mas isto foi antes do carro de Fred Miner ter-lhe esmagado as feições: mandíbula deslocada, nariz amassado e um dos olhos faltando. Sam falou: - Ambas as rodas passaram por cima dele. Afundaram o peito, quebraram o crânio como se fosse uma noz pecan e fizeram com que o vidro do farol penetrasse no rosto - e fechou a pasta. Suas mãos tremiam. - Faz a gente ter pensamentos macabros, ah, se faz... pelo menos a mim. Será que eu estou perdendo a forma, Howie?

Adquira no link.

Estante Virtual

domingo, 18 de dezembro de 2011

DINOSSAUROS - Livro




 Os autores

Paul Barrett trabalha no Departamento de Paleontologia do Museu de História Natural de Londres e tem diversos artigos e livros publicados na sua área de atuação.

 
Paul Barret

Raul Martín é ilustrador e trabalha em diversas áreas relacionadas a arte. Mas nos últimos anos vem se especializando em ilustrações da vida pré-histórica. Em seu site, você encontra diversas galerias de suas ilustrações paleontológicas.

O livro

Uma publicação com o selo National Geographic, esse livro mantém o conceito da revista: textos acessíveis baseados em muita pesquisa com fotos e ilustrações de alta qualidade gráfica.

 
O livro está repleto de dezenas de belas ilustrações de página inteira e página dupla. 
Clique para ampliar. 


Dividido em capítulos curtos, que vão de uma a quatro páginas, o livro tem três seções distintas: a primeira parte ocupa 60 páginas e dá ao leitor uma visão geral sobre dinossauros, o que são, como foram descobertos, as eras geológicas, as diferentes espécies, teorias antigas e modernas, fósseis, biologia, comportamento, etc. O conteúdo é mais do que suficiente para qualquer iniciante ou professor saber o suficiente para satisfazer sua curiosidade ou preparar uma boa aula. 

A segunda e maior parte do livro, com cerca de 120 páginas, tem um design mais enciclopédico, com cada dinossauro tendo direito a uma à quatro páginas dedicadas a analisar seus ossos, história e comportamento.
Um mapa demonstra a região onde cada um deles habitou e dois gráficos marcam a época em que viveu, seus dados científicos e sua proporção em comparação com o homem. A variedade de dinossauros impressiona e para quem está familiarizado apenas com aqueles que veem em filmes, saiba que existiram milhares de espécies diferentes que viveram em terra, mar e ar. O livro, infelizmente, só pode apresentar uma pequena fração deles e se atém aos dinossauros terrestres, deixando de fora os pterossauros e os monstros marinhos.



 Longos períodos de seca foram um dos fatores que levaram diversas espécies à extinção.


De qualquer forma, o leitor enriquecerá seu conhecimento conhecendo dinossauros que vão desde o tamanho de um pardal até o de um prédio de cinco andares, tal a diversidade fabulosa desses esplêndidos animais, antepassados das atuais aves, e não dos répteis, como muita gente ainda pensa. Os répteis já existiam na época dos dinossauros e crocodilos e tartarugas mudaram mais em tamanho (diminuíram) do que em forma daquela época aos nossos dias atuais.

Na terceira e última parte do livro, que ocupa poucas páginas, o autor fala sobre a extinção dos dinossauros e as teorias que ainda são debatidas sobre o assunto, o interesse renovado por eles graças ao cinema e apresenta um pequeno glossário de termos usados ao longo do livro para uma melhor compreensão do livro.

Um livro obrigatório para qualquer um que tenha nostalgia de um tempo em que nenhum humano jamais viveu.

Trecho

 
 O Carnotauro foi uma espécie que habitou a região sul da América do Sul, incluindo o Rio Grande do Sul. Uma excelente réplica animatrônica em tamanho natural encontra-se na entrada do MUSEU DA PUC-RS em Porto Alegre.
Página da publicação americana.


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Usado.

Boa leitura.


quinta-feira, 11 de março de 2010

GÊNESE PAGÃ – Crítica

A autora

Simone Marques, pedagoga de formação e escritora. Nasceu no ano em que Woodstock mexeu com o mundo. Desde pequena seu desejo era ser professora. Fez magistério em escola pública, pedagogia na PUC de São Paulo e Mestrado em educação na Universidade Federal do Paraná. Trabalha desde os 16 anos com educação.
Atualmente mora em Recife e de sua janela pode ver o mar, de onde tira sua inspiração.Escreveu seis livros e vários contos, que estão disponíveis em seu site.

Sinopse

A história se passa no século XVII, em Portugal. Gleide e Adele, mãe e filha, enfrentam a perseguição da Igreja contra hereges pagãos. Em sua fuga são ajudadas por Diogo, um jovem nobre cristão e que se vê apaixonada pela bela Adele. Juntos, têm que lutar pela liberdade e pela vida, além de cumprirem a missão que lhes foi dada pela Deusa.

O Livro

Confesso que não esperava muito desse livro quando o recebi, pois havia lido um ou dois capítulos na internet que não me empolgaram muito, o que mais uma vez reforça que ler livro pingado na internet não funciona pra mim.

Mas aí a Simone teve pena de mim e me enviou o livro dela pelo correio e consegui lê-lo direito.

E foi com surpresa que descobri que o livro é bom, divertido e bem escrito.
Com uma narrativa ágil, ela prende a atenção dos leitores com personagens interessantes, simpáticos, cruéis e ambíguos, em especial Gleide, a líder da aldeia e mãe de Adele. Sua personalidade forte e atitudes extravagantes a fazem o melhor personagem do livro.

Sobre a história em si, achei um pouco forçado alguns nomes ingleses atribuídos a portugueses do século XVII, assim como a sobrevivência de comunidades pagãs na Portugal da época.

Em países mais remotos, menos católicos ou no início do Cristianismo, acho que seria mais crível a trama toda, porque se fosse pela inquisição, essa poderia ser substituída pela intolerância cristã, já que o cristianismo nascente matou milhares em nome de Cristo em seus primórdios.

Mas isso, de forma alguma, desmerece o entretenimento da narrativa e o prazer da leitura. Eu me diverti lendo-o e pretendo ler os próximos.

Sim, GÊNESE PAGÃ é uma saga, como é moda hoje em dia, e outros livros já foram e serão publicados, como podem verificar no site da autora.
E eu acredito, que com o talento de contar história que a Simone demonstrou nesse primeiro livro, os outros devem vir melhores ainda.


Trecho

Dom Couto se virou para mulher e fez a pergunta secamente.

- És cristã? – ele a encarava.

- Eu... não sei, senhor... – a mulher se retraiu. Dom Couto riu alto e o som de seu riso ecoou pela câmara.

- Estás vendo? És uma pagã! Uma adoradora do demônio! – ele falou e deu as costas para a mulher, que com certeza não sabia a resposta que deveria dar. – Padre! – ele se voltou novamente ao sacerdote. – Tire essa daqui e dê uma túnica seca, quando ela estiver melhor leve-a para falar comigo. – Ele olhou para a jovem jogada no chão, o vestido molhado e rasgado dela deixava à mostra um dos pequenos seios, que denunciavam que ela não deveria ter mais de 14 anos...

O padre, então pediu a um dos guardas que o ajudasse a levar a jovem para a casa de uma beata e, com extrema facilidade, o homem ergueu a jovem miúda do chão e a levou para fora da câmara...


Quer ler on-line? Conheça o site!

Simone Marques.


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ENQUANTO ISSO...

A triste e trágica história do cara mais gato do mundo lá no site da CAPRICHO.

E como sempre, mais um post cheio de bobagens no blog da CAPRICHO.


120.000 VISITAS!

Nossa, haja café pra toda essa gente!

700 SEGUIDORES!

Se meus 700 seguidores se dessem as mãos, daria para dar a volta completa no planeta Gajko, que é bem pequeno...

quarta-feira, 23 de abril de 2008

ASSUNTO DE INIMIGA - O LIVRO


Capa de Nik Nevs.

Como já dizia Goebbels, propaganda nunca é demais, então taí, o meu livro de humor Assunto de Inimiga para aqueles que ainda não o compraram, agora só em sebo. Ou baixando no link. ;-) E boa leitura. Ou não, você decide depois de ler.