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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

PRECE - microconto


                                                            
    Eu entro na Igreja. Quero falar com Deus. Mas não o sinto. Eu própria não me sinto. Há um padre no altar. Poucas pessoas nos oratórios. As imagens de anjos e santos me observam. Não. Demônios me observam. Eu só vejo demônios. Vejo também corpos mutilados e pessoas gritando. O padre reza. Ouço obscenidades. As pessoas à minha volta são caricaturas de seres humanos. Está tudo errado. Isso é uma igreja? Mas apesar de tudo, ela  continua reluzindo a ouro e prata. Eu não compreendo. Eu não me compreendo. Deus, faça-me compreender! Deus não me compreende. Me ajoelho para implorar por Seu perdão e sinto agulhadas. Ossos. Há ossos no chão. O chão é feito de ossos. Minha pele se rasga. O padre se foi. Mas a batina dele continua lá, rezando. Quero dizer, dizendo obscenidades. O padre, quero dizer, a batina, diz que quer sexo. O meu. Acho que não escutei bem. As caricaturas olham para mim. A batina flutua em minha direção. As imagens de demônios encaram meu corpo com luxúria. Grito para pararem. Eles param.

 
Maio, 1990


quinta-feira, 20 de março de 2014

MORTA - microconto





                                                       
MORTA!
      
    Morta! Ela está morta! Saio gritando. As mãos na cabeça. Morta! Morta! Morta! Louco. Estou louco. Não aguento mais. Os vizinhos escutaram. Corro. Sempre corri bem. Mas não é o bastante. Continuo gritando. As mãos na cabeça. Ela não devia ter feito aquilo. Merda! Merda! Escuto sirenes. Escuto gritos. Mãos na cabeça! Já estou com as mãos na cabeça. Não conseguem ver? Mãos na cabeça! Corro. Com as mãos na cabeça. Peito explode. Caio. Morro. Com as mãos na cabeça.

Dezembro, 1989