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quinta-feira, 27 de setembro de 2018

AKIRA KUROSAWA - Entrevista

Akira Kurosawa foi o cineasta japonês mais popular no Ocidente.


Uma das últimas entrevistas de Akira Kurosawa (1919 - 1998).

A entrevista original (em inglês) contém muitas observações do entrevistador Maani Petgar a respeito de filmes e das reações de Kurosawa durante a entrevista que podem ser bastante ilustrativas. Clique abaixo para ler.

Cinephilia & Beyond

Maani Petgar e Akira Kurosawa.


- Sr. Kurosawa, eu estava pensando em como você foi apresentado ao Cinema Iraniano.

- O primeiro filme que vi foi um filme de Kiarostami. Durante o regime do Xá, fui convidado para ser jurado do Festival de Filmes de Teerã, do qual declinei pois era uma responsabilidade muito grande. Depois da Revolução, eu vi o filme do Sr. Kiarostami (Onde Fica a Casa do meu Amigo?) e fiquei bastante impressionado em como era bem feito.
A tela é como uma grande praça onde todos podem se juntar e conversar entre si. Por exemplo, eu trago para minha tela os problemas de meu país e Kiarostami os do dele. Os atores dão voz as nossas palavras, tocam o coração das pessoas e esse é o papel do cinema, falar um com o outro. E essa é a responsabilidade do seu cinema.
Um filme deve ser feito com o coração, não com a mente. Eu penso que os jovens cineastas de hoje esqueceram isso e hoje fazem filmes através de cálculos. É por isso que não existe mais público para filmes japoneses.  Como toda a sinceridade, filmes tem que ser feitos apontados para seus corações. Na época de Ozu, meu mentor, e também na minha época, nenhum cineasta fez filmes baseados em teorias e cálculos, e foi graças a isso que o cinema do Japão foi capaz de moldar seu anos dourados. Jovens cineastas usam técnicas para humilhar seu público. Está errado. Nós devemos servir ao Cinema e fazer um filme que estimule a plateia. No fim das contas, o objetivo deveria ser fazer um filme artístico. Simples, não é?

- Em seus filmes mais antigos, existe sempre uma preocupação sobre as situações humanas. Qual a raiz disso?

- Quando se fala de humanidade no Japão, todos pensam em histórias e personagens complexos. No entanto, o que quer que um ser humano comum sinta, nós tentamos projetar na tela de forma honesta. É isso.


Filmes como Yojimbo foram adaptados para gêneros como o western e filmes de gângsters.


- Você era interessado em Cinema Americano...

- Em relação ao Cinema Americano, eu diria que filmes melhores foram feitos no passado. Hoje o Cinema Americano faz um desserviço ao público. Violência e acidentes de carro são frequentes. Que prazer existe em assistir essas cenas? Filmes americanos antigos expressavam bem problemas humanos, mas hoje em dia o Cinema Americano tem problemas. Não há dúvida de que um filme como Parque dos Dinossauros é interessante, mas costumava existir filmes mais impressionantes no passado. Em contrates, filmes como os de Kiarostami, emocionam e são muito bonitos. Esses novos filmes de ação e ficção científica são bons, mas não são Cinema. 

- Em comparação ao cinema como entretenimento, como você acha que o cinema artístico do Terceiro Mundo pode atrair um público ocidental?

- A civilização envenenou a humanidade. A espinha dorsal de um bom filme é o caráter humano do diretor. Se não formos honestos conosco, jamais seremos capazes de realizar bons filmes. Na verdade, isso não significa que se uma país está bem, ele é necessariamente capaz de fazer bons filmes. Uma pessoa que seja capaz de fazer bons filmes, sabe como encontrar o caminho para emocionar o espectador; assim como John Ford, Jean Renoir, Joh Houston, Federico Fellini, Angelopoulos, Sidney Lumet... Eu me encontrei e conversei com cada um deles. Assim como eles tinham obras excepcionais, eles também tinham distinção no caráter. Foi muito fácil estabelecer uma relação cordial com eles, o que é muito importante. As pessoas que eles apresentam nas telas em seus filmes não são personagens pré-determinados (moldados). Elas expressam problemas humanos de uma forma natural. Por isso seus filmes são fascinantes. Sidney Lumet é um amigo próximo, e sempre que sentamos para conversar, nunca falamos sobre cinema. Geralmente discutimos assuntos banais, problemas sociais ou nossos passatempos, e nos divertimos com isso. Jornalistas sempre me perguntam qual o conteúdo de meu filme e eu lhes respondo que isso não existe. Eu falo sobre coisas comuns. Um filme não deveria ser uma palestra.


A Fortaleza Escondida inspirou George Lucas a usar os dróides como um dos pontos de vista da saga.


- Você falou algo sobre humanidade no Japão. Poderia, por favor, elaborar sobre isso?

- Eu posso também falar de política, mas eu tenho uma tendência de falar mais sobre pessoas.  Por exemplo, tais e tais tipos de humanos costumam existir no passado mas agora não existem mais. A sociedade se torna cada vez mais corrupta. No passado, não tínhamos abundância ou qualquer tipo de conforto, mas o homem vivia em de forma natural. Hoje em dia tem sempre notícias sobre violência e mortes nos jornais e na TV japonesa. Quando eu era jovem, assassinatos eram raros, e se algum era cometido, isso causava muita comoção. Ouvi dizer que é muito pior na América. No passado, as pessoas eram mais decentes.

- O que você pensa que é a razão para isso?

- No Japão a sociedade progrediu através de um crescimento rápido, que foi um processo antinatural. A rotina diária perdeu seu curso natural. Para viver, tornou-se necessário trabalhar para além de suas habilidades pessoais. É por isso que aumentou a instabilidade entre as pessoas.


Trono de Sangue. 
Macbeth de Shakespeare transportado para o Japão feudal.


- E no meio disso tudo, qual seria a responsabilidade do cineasta?

- Nos últimos tempos há cada vez menos filmes agradáveis sendo feitos. Filmes da Yakuza (Máfia japonesa) ou filmes americanos violentos similares tem se tronado estranhamente atrativos, o que é uma tendência perigosa, principalmente porque ele tem um efeito negativo nas crianças. Fiquei sabendo há pouco que um jovem britânico cometeu um crime horrível. Uma vez que a violência se torne um ato comum, ela distorce as mentes e o raciocínio das crianças.

- Me parece que você despreza violência...

- Sim. O principal problema hoje é a forma como ensinam e educam, o que causa o surgimento de tais tendências. No Japão atual, o sistema educacional se tornou uma fonte de renda. Eu não permito que meu neto vá para a escola. É complicado achar um professor responsável nas escolas hoje em dia. Costumavam existir ótimos professores no nosso sistema escolar. Como a história sugere em Madadayo, os estudantes aprendem mais com a conduta do professor do que com o que lhes é ensinado.  Mesmo depois de formados, eles continuam fiéis e devotados àquele professor. Uma das matérias da escola era Psicologia e Filosofia, um debate sobre o que um ser humano deveria ser, e isso não faz mais parte do currículo. Antes da guerra, Lógica era ensinada visando o exército, mas depois da guerra Lógica foi proibida. O problema estava na forma como era ensinada (focando no militarismo), não na pessoa em si. Esse foi um grande erro. No passado as escolas tinham grandes pretensões na educação dos estudantes, hoje é o oposto. É muito difícil entrar na faculdade no Japão atual, mas basta entrar que as pessoas se graduam em alguns anos  sem um bom treinamento ou formação. Por outro lado, no Ocidente, já não é tão complicado entrar na faculdade, mas ao invés disso, matérias científicas são ensinadas com critério e se a pessoa não consegue passar nas provas, a pessoa não se forma. Em termos de sistema educacional, o Japão pegou a estrada errada. Cobramos constantemente as autoridades sobre essa política equivocada. É muito ruim que o número de jovens ignorantes esteja crescendo.


 Madadayo.
Kurosawa tem uma visão saudosista e aparentemente um pouco ingênua do passado recente.


- Você fez filmes sobre a bomba atômica. Você acredita que com a queda da Rússia, diminuiu de alguma forma o perigo da utilização de armas nucleares? Pretende fazer outros filmes com esse tema?

- O meu primeiro filme sobre a bomba atômica foi chamado Anatomia do Medo e o outro Rapsódia em Agosto. Um segmento do filme Sonhos de Akira Kurosawa foi devotado a esse tópico. A preocupação sobre a bomba atômica é muito importante. Por exemplo, devido a escassez energética, usamos energia nuclear, mas não sabemos exatamente como nos livrar do lixo nuclear. Posso antever os perigos que teremos que encarar. Se realmente existe escassez de energia, temos que tentar economizá-la. Em Tóquio se usa eletricidade como se não houvesse amanhã. Isso não é necessário. Seria melhor se pudéssemos usar o conhecimento dos engenheiros nucleares para criar energia com vento e recursos naturais. Eu acredito que o depósito de lixo nuclear é um assunto muito importante.

- E como essas preocupações se refletem no seu próximo filme?

- É uma história simples sobre pessoas e seus problemas psicológicos. A compaixão precisa ser levada mais a sério. Antigamente as pessoas pensavam mais nos outros do que em si mesmas. Olhando retrospectivamente, percebemos que benção isso era, embora fosse um instinto natural. Se eu conseguir colocar isso na tela, tenho certeza de que será eficaz. No passado, as relações entre vizinhos eram calorosas e sinceras, enquanto que hoje ninguém sabe o que o vizinho do lado faz e ninguém se importa. Meu vizinho é um padeiro e tem uma padaria aqui perto. Ele vive me trazendo pão novo. Eu ainda acho que essas amizades são importantes.


Sonhos de Akira Kurosawa.
Diversos curtas baseados nos sonhos do mestre com produção da versão internacional a cargo de Steven Spielberg, um de seus grandes admiradores.


- Paraíso foi apresentado de forma gloriosa no final de Sonhos de Akira Kurosawa. Você poderia aprofundar mais no que você pensou sobre as qualidades daquele paraíso?

- Fizemos muitas buscas por uma locação apropriada para aquela cena. As margens de muitos rios japoneses foram cimentadas recentemente. Foi bastante difícil. No fim das contas, algumas das tomadas foram feitas por volta aqui da minha casa. Nós construímos os moinhos e alguns deles ainda estão lá.

- Que tipo de experiência você teve com co-produções com outros países e grandes orçamentos?

- Eu recebi uma oferta da Rússia. Eu tinha lido Dersu Uzala e sugeri produzi-lo. Eles acharam uma ótima ideia. Me perguntaram como conheci o livro. Lhes disse que o havia lido antes mesmo de entrar para o mundo do cinema. As pessoas descritas nessa história tem almas belas. Depois da filmagem, percebi que tinham exposto estátuas de dois dos personagens principais numa das cidades da Sibéria. Na época achei que teríamos problemas com a língua. No entanto, o ator principal não sabia falar russo muito bem e estava no mesmo barco que eu. Então conseguimos nos comunicar bem. Mas aconteceu algo engraçado certo dia: O ator que fazia o papel da capitão estava dando sua fala quando eu disse "Corta." Ele correu na minha direção e disse "Você entende minha língua? Eu acabei de erra o texto, mas foi um erro tão pequeno que eu não acredito que alguém de fora vá descobrir." Eu respondi "Eu não entendi o que você disse, mas eu senti uma insegurança quando você deu sua fala."


Dersu Uzala.
O confronto entre a vida simples e a modernidade. 


- Pode nos dar mais detalhes sobre seu novo filme?

- Eu queria começar a filmar neste verão, mas a triz principal ficou grávida e foi para casa. Agora temos que esperar ela. Eu não havia falado sobre isso antes. Eu pedi para ela não engravidar, mas aparentemente meu pedido chegou tarde demais. Ela até mesmo pensou em abortar, mas eu disse para ela nem cogitar isso e que tivesse um bebê saudável. Eu lhe disse que adiaria o filme e esperaria por ela.

(Nota: o filme nunca foi feito.)

- O que você pensa de Tarkovsky, como amigo e cineasta.

- Ele era um bom homem. Ele era tão querido como um irmão menor. Eu estava preocupado com ele porque ele estava tão frágil. Fiquei bastante perturbado com sua morte.


Andrei Tarkovsky (1932 - 1986)
Assim como Kurosawa, o cineasta russo conseguiu conquistar uma grande audiência cinéfila no Ocidente.


- Seu senso de humor deve ter feito a vida mais tolerável para você, enquanto que a amargura de Tarkovsky talvez tenha sido um pouco excessiva...

- Ele estava extremamente fraco, sensível e doente. Antigamente meus amigos cineastas e associados passavam aqui sem avisar. Nós sentávamos para beber e conversar. Mas nos último anos, eles não aparecem nem quando os convido.


Tradução: Jerri Dias


segunda-feira, 17 de julho de 2017

ADAM MCKAY - Diretor



Adam McKay (1968 - )não é aquele grande diretor que costuma concorrer a Oscars como Woody Allen ou tem uma legião de fãs fiéis como  Peter e Bobby Farrelly. Na verdade, só nesta década é que fui notar como o cara era bom e dominava a sua arte. E quando ele juntou a comédia besteirol com crítica político-social em OS OUTROS CARAS, ele simplesmente ascendeu ao nível dos grandes diretores do gênero. E a seguir deu um grande passo ao buscar a comédia dramática no excepcional A GRANDE APOSTA, filme sobre a crise americana de 2008 que derrubou economias no mundo inteiro e concorreu ao Oscar. Assunto do qual ele já havia começado a tratar em OS OUTROS CARAS.  Mas antes disso vieram várias ótimas comédias com seu parceiro de produtora (Gary Sanchez Productions) e ator-fetiche, Will Ferrell, com o qual trabalha há muitos anos e com quem co-escreve os roteiros da maioria de seus filmes.

Mas para entender melhor seus filmes e seu processo de trabalho, selecionei perguntas de entrevistas sobre filmes diferentes , pois nada melhor do que saber do próprio diretor.

Sobre OS OUTROS CARAS

Como o filme foi criado? O conceito de paródia veio primeiro? E Will Ferrell estava definitivamente envolvido?

Existe sempre um ponto onde você encontra aquilo que procura. No caso de O ÂNCORA: A LENDA DE RON BURGUNDY (2004), foi Will que assistiu uma entrevista com um âncora de TV dos anos 70 falando sobre como eles eram sexistas. E foi o tom de voz dele que Will adorou. Como RICK BOBBY - A TODA VELOCIDADE, foi o NASCAR, Bush, os estados caipiras da América. Mas com este filme, foi na verdade um jantar com Mark Wahlberg.

Nós saímos com ele e Will e Mark sentaram um ao lado do outro e Mark nos fez rir a noite toda. Ele é um ótimo cara, muito engraçado. E qundo eu fui embora eu disse "vocês dois tem que fazer um filme, essa foi uma das químicas mais interessantes e bizarras que eu já vi e ele (Mark) certamente sabe como jogar ."

Essa foi a gênesis do projeto, e somente por olhar eles e baseado no histórico de Mark, eu pensei, bem, deveria ser uma comédia de ação. Nós ainda não havíamos feito aquilo, e isso era muito empolgante.

E então eu tive esse ideia dos outros caras, os caras que ficam nas mesas ao lado dos superastros. E pra ser bem franco, foi só lá pela metade da coisa toda que eu percebi que nós estávamos fazendo um filme de parceria policial. Não nos passou pela cabeça porque, vamos encarar, de uma certa forma é um gênero quase morto.

Na verdade, eu diria que o único filme bom de parceria policial feito nos últimos 10 anos foi CHUMBO GROSSO. Não consigo lembrar de mais nenhum. Então, de repente a gente tava tipo, "Ah, meu Deus.
Estamos fazendo um filme de parceria policial," e nós estávamos tentando mesmo não fazer daquilo uma paródia. Mas, apenas pela qualidade de ser um filme de parceria policial, ele é uma paródia. É como fazer uma comédia que é um Western.

Imediatamente, é uma paródia, mesmo que nós estivéssemos fazendo tudo diferente, ou tentando mudar as coisas. Você sabe que tem que acertar determinados pontos e é assim que funciona. Logo a gente meio que sabia disso. Nós falamos, "Então tá, vai ser um filme de parceria policial. Vamos fazer o melhor pra fazer dele o mais original e engraçado que pudermos. Provavelmente vamos fracassar em alguns pontos, e nesses pontos vai ser uma paródia." Foi assim que começou.

Leia a entrevista completa .


 

Sobre TUDO POR UM FURO

Como se desenvolve um roteiro desses?

Bom, foi sempre sobre aquela ideia.  Assim que se tem essa espinha dorsal, o tema principal, você constrói tudo ao redor disso. Assim que tivemos a ideia do canal de notícias 24 horas, nós soubemos, "O filme vai ser sobre isso." Então escrevemos um texto de 25 páginas que era um monte de merda que a gente queria ver no filme. Não precisa ter nada a ver com a história. Pode ser tão aleatória quanto uma canção romântica para um tubarão, vale qualquer coisa. A primeira de todas, Ferrell disse, "Eu acho que ele precisa tocar flauta de jazz." E nós... "Boa. Ele vai tocar flauta de jazz." E aí você tem esse monte de ideias amontoadas e quando acaba você vai e tenta aplicá-las no tema principal. Você examina o que cola e o que não cola. E às vezes você diz, "Foda-se! A gente vai colocar isso de qualquer jeito." E outras vezes... "Bem, não tem jeito de fazer isso funcionar." Tirando isso, você faz suas guias, faz o primeiro tratamento, que normalmente tem 160 páginas e é uma confusão só. Aí você ajeita aquilo e acaba com 120 páginas. A gente nunca para de reescrever. Você faz outra leitura de mesa, basicamente até começar a gravar, e você fica reescrevendo constantemente. A ideia é ter um roteiro tão forte que te permita improvisar porque você sabe que tem um bom roteiro. Então, junto com a improvisação, a pressão vai embora. Você não depende tanto dele.    

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Sobre A GRANDE APOSTA

Como você alterou seu estilo de comédias besteirol para A GRANDE APOSTA? Você trabalhou com o Diretor de Fotografia Barry Ackroyd nele, com uma estética câmera na mão e acompanhamento de personagens. Em uma conversa recente com Paul Thomas Anderson, você mencionou que comédia são gravadas tradicionalmente com planos estáveis, centrados nos atores, enquanto quem em A GRANDE APOSTA você conseguiu ótimas risadas com uma câmera que praticamente voava pelo ambiente.

Acho que toda história, todo filme, tem uma forma como necessita ser contado. Eu acredito que a forma serve a função. E no caso desta história, eu senti que ela era um história oposta à MARGIN CALL - O DIA ANTES DO FIM  e WALL STREET, que são mais sobre o lado do poder. Esta é mais sobre os caras nervosos, marcados pela pena e levados pela ansiedade que estavam na beirada de tudo. Por isso eu sempre soube que queria gravar esse filme num formato verité, meio que num estilo Costa-Gavras. Eu assisti vários filmes dele. E quando se começa a falar desse estilo visual, tem um nome que vem a frente de todos que é o Barry Ackroyd, uma dos melhores Diretores de Fotografia vivos. Nós não queríamos ficar presos num monte de planos médios parados de pessoas em celulares - nós queríamos estar dentro desses momentos, sentir a incerteza, a ansiedade e a empolgação desses caras.  

A parte que me surpreendeu foi que, normalmente, na comédia te dizem para manter o plano bem parado pra deixar o ator e as ideias criarem a comédia, e não o plano. E eu fiquei empolgado ao ver nesse filme que mesmo tendo essa estética verité, nós estávamos conseguindo boas risadas - o que me fez pensar que o público está se tornando rapidamente bastante sofisticado em relação a estéticas visuais. 

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segunda-feira, 27 de março de 2017

CHARLES RANDOLPH - Entrevista

Na entrada da cerimônia do Oscar, quando receberia e estatueta pelo Melhor Roteiro Adaptado.

O roteirista

Ex-professor de filosofia, Charles Randolph desistiu da vida acadêmica para perseguir uma carreira como produtor e roteirista na competitiva indústria americana. E depois de conseguir ver nas telas alguns de seus roteiros nas mãos de bons diretores como Alan Parker (A Vida de David Gale, 2003) e Sidney Pollack (A Intérprete, 2005), Randolph encontrou um ótimo parceiro no diretor Adam McKay. Conhecido pelas ótimas comédias com o amigo Will Ferrell, McKay já havia abordado o assunto da crise financeira de 2008 na excelente comédia Os Outros Caras (2010). Juntos, ambos adaptaram o complexo livro de Michael Lewis (A Jogada do Século) em A Grande Aposta (2015), uma sofisticada comédia de humor negro sobre a pirâmide financeira que promoveu uma crise cujos impactos sofremos até hoje.  O roteiro de A Grande Aposta recebeu 20 prêmios de Melhor Roteiro Adaptado em festivais e associações cinematográficas, incluindo o Oscar. Atualmente Randolph trabalha no remake de Os 10 Mandamentos e e um western a ser dirigido por Martin Scorsese, St. Agnes' Stand.

A entrevista

Você escrevia antes de deixar de lecionar?

Bem, eu lecionei na Europa. Lecionei em Viena, na Áustria. Eu focava todo ano em vários formatos e estudos culturais. Certo ano eu me interessei por documentários e fiz alguns documentários educacionais para escolas, na verdade para a Procter & Gamble. Eram filmes sobre biologia. Basicamente educação sexual sob uma perspectiva biológica. Também fiz uma exibição em um museu.

Então eu fiz várias coisas como essa. E comecei a estudar longas e fiz algumas palestras em Los Angeles na USC sobre o estado de vários gêneros americanos. E também entrevistei vários escritores sobre esses gêneros todos e acabei conhecendo os irmãos Sperry e um de seus produtores me pediu para escrever algo para eles, algo que eles acabaram nunca pegando. Entrão foi uma daquelas coisas nas quais eu já estava interessado e por isso não foi uma transição artificial. E eu não feliz para onde minha área acadêmica estava indo. Em adição à isso, o prazer de sentar e criar algo é simplesmente fenomenal.


Steven Carrell e Ryan Gosling.
"O que admiro no filme e no livro de Michael é que o personagem Baum (Steven Carrell) tinha o potencial para extrapolar e colocar na tela o cara que era a própria doença que ele dizia poder curar (...)."


Como você foi parar no filme A Grande Aposta? Eu sei que o livro foi comprado pela Paramount e Adam McKay acabou embarcando dentro. Você estava no projeto antes de McKay?
 

Sim, eu estava. Acho que o livro ainda estava sendo escrito quando a Plan B (produtora de Brad Pitt) o comprou junto com a Paramount. A Paramount o comprou para a Plan B. Eles me ligaram e disseram: "Ei, temos um projeto. Nós adoramos o livro. É do Michael Lewis."

Eu já o tinha encontrado algumas vezes e disse: "Com certeza." Eu o li em 24 horas é é um livro fantástico por todas essas razões que você sabe e tantos outros também. O livro conseguiu explicar o que aconteceu em 2008 ao mesmo tempo em que apresentava esses personagens extraordinariamente engajados que nos faziam sentir que eles poderiam estar em um filme.

Eu pulei dentro e escrevi o roteiro, e o entreguei quatro, cinco meses depois. Trabalhei nele e então ele meio que travou. Acho que para a Paramount era um mundo terrivelmente abstrato e havia esses questionamentos sobre identificação.

Levou bastante tempo porquê nós tínhamos que descobrir um forma de ensinar os espectadores e ao mesmo tempo apresentar essas ideias de forma dramática. A sequência da Flórida não está no livro e eu meio que tive que escrever ela do nada, então eu comecei com algo que eu conhecia - coisas sobre hipotecas e corretores de imóveis, inquilinos e proprietários. Este filme é para as pessoas que não pertencem a área financeira, então, assim que acabei essas 8 páginas, eu entendi que aquilo era um ótimo tom divertido para colocar no resto do material. E então eu comecei a trabalhar nas coisas do livro. Fiz muita pesquisa. Fiquei sabendo dos 20 maiores hipotecários de Manhattan. Eu provavelmente conhecia dois ou três dele pessoalmente, por acaso, e eles me colocaram em contato com um monte de gente.

Eu não estava como o Michael, que escreveu quase logo após o acontecido, e por isso eu sentia esses personagens de uma forma mais distante. Mas foi fascinante descobrir que quase todas as pessoas com quem falei não tinham ideia do que elas estavam negociando. Você negocia informação, certo? Se você trabalha no banco, você basicamente usa o conhecimento que você tem sobre para onde o mercado está indo através da qualidade de produtos que você está criando ou vendendo. Então eles negociavam informação, mas poderia ter sido cotação do feijão - ninguém tinha um entendimento real do produto subjacente. No momento em que aconteceu, no momento em que eu percebi que Michael Lewis sabia cem vezes mais do que as pessoas que fazem milhões e milhões negociando essa coisas, me senti muito mais confiante no que iríamos fazer com o filme porque naquele ponto era assim: "Ok, estamos em uma posição confortável porque podemos jogar um monte de coisas nas pessoas." O que eu estava esperando era aquele tom onde tem tanta coisa vindo pra cima de você, e você não consegue absorver de jeito nenhum, mas ainda assim você consegue pegar a essência da coisa. Existe um certo tipo de prazer nisso. Eu estou enrolando um pouco, mas a Disney tem esse esquema em seus parques quando eles organizam um espetáculo, como um show de fogos, onde eles se asseguram em exaurir a capacidade dos visitantes de absorvê-lo. Você está imerso em um excesso de estímulos prazerosos, e é por aí que começamos, porque o filme conecta com uma bela metáfora para as pessoas que realmente estão nesse negócio. Eles não entendiam seu produto e eles não entendima o que estava acontecendo no mercado. Nós queríamos colocar o espectador naquela posição emocional de "O quê está acontecendo?"

  
Ryan Gosling e Adam McKay.

Sobre a colaboração com o diretor Adam McKay: "As coisas que eu sempre gostei, ele manteve. E algumas das coisas que eu estava em dúvida, essas foram as que ele alterou. Então eu percebi que compartilhávamos uma certa sensibilidade e sabia que ele realmente estava melhorando o roteiro. Ele me encontrou no meio do caminho."  
 

Quando Adam (McKay) finalmente recebeu o material e o leu... Ele havia lido o livro antes, adorado e feito uma conexão com ele. E quando ele pegou o roteiro, ele disse: "Eu quero filmá-lo."

Ele embarcou e fez algumas coisas que foram muito bem sacadas. Uma delas foi achar uma forma de quebrar a Quarta Parede e apresentar esses interstícios para pausar o filme e esclarecer alguns conceitos financeiros. E fazendo isso, sobrepôs isso nos outros meta artifícios, o que permitiu ao filme ter uma voz separada e diferenciada dos outros personagens, o que foi bastante agradável.   

Ficou com um sensação de quase documentário onde o diretor fala conosco e isso se torna o locus da nossa conexão emocional com o filme onde nós poderíamos fazer aquela coisa onde estamos torcendo pelos personagens mas então o filme meio que se volta contra eles e diz: "Espera um pouco. Você está torcendo por eles, mas não deveria."

Links

Os trechos desta entrevista foram selecionados dos seguintes sites (clique para ler as entrevistas originais na íntegra) :

Forbes

The Film Stage

Deadline


quarta-feira, 15 de março de 2017

EDWARD SNOWDEN - Entrevista


Entrevista com o ex-funcionário da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos exilado na RÚSSIA, que denunciou como o governo americano espiona e hackeia celulares redes sociais de qualquer pessoa sem autorização judicial e sem critério algum.




terça-feira, 27 de setembro de 2016

NEIL GAIMAN - Entrevista

 O Senhor das Palavras.

Neil Gaiman é um cara que dispensa apresentações para quem curte quadrinhos maduros e literatura fantástica.

Então, para vocês, fãs de Gaiman que querem conhecer ele um pouco melhor e saber o que ele pensa sobre literatura, quadrinhos e outros assuntos, selecionei perguntas de entrevistas diferentes (para não ter problemas com direitos autorais) e após cada resposta eu linkei o original onde quem lê inglês pode ler a entrevista completa.

Com a palavra, Neil Gaiman:

O que você gostava de ler quando era criança?

Qualquer coisa. Eu era um leitor. Meus pais costumavam me revistar antes de reuniões de família. Antes de casamentos, velórios, bar mitzvahs e o que fosse. Porque se não o fizessem, o livro estaria escondido dentro de um bolso ou outro lugar e assim que eu tivesse a oportunidade eu acharia um canto para ler o livro. Era assim que eu era... era isso o que eu fazia. Eu era o menino com o livro. Agora, tendo dito isso, minha tendência era gravitar ao redor de qualquer coisa fantástica, fosse Ficção Científica, fosse Fantasia, fosse Horror, fossem histórias de fantasmas ou qualquer coisa dentro desse território. Mas eu era, definitivamente, o tipo de criança que lia de tudo. O legal de estudar em uma escola na Inglaterra naquela época é que as escolas eram realmente muito velhas. E elas sendo bem velhas isso significava bibliotecas construídas nos anos 1920. Aquela foi a última época em que saíam em expedições de compras de grandes livros. E mais algumas surgiram nos anos 1930. Eu tive a oportunidade de ler esses autores quase esquecidos. Eu sentava e devorava as obras completas de Edgar Wallace ou G.K Chesterton. Na verdade, eu me lembro de ver pela primeira vez os dois primeiros volumes de O Senhor do Anéis em dois capas dura bem detonados. A Irmandade Do Anel e As Duas Torres. Era o que tinha na biblioteca, e eu os li e reli várias vezes, imaginando como aquilo acabaria. E quando eu tinha doze anos eu ganhei o prêmio de Inglês da escola e eles disseram: “O que você gostaria de ganhar como prêmio? Você ganha um livro.” Eu disse: “Por favor, posso ganhar o Retorno do Rei para saber o que acontece?” 

Leia a entrevista completa aqui.


Os Pérpetuos no tradicional almoço de domingo. ;-)


Sobre criar uma família disfuncional para Sandman e seus irmãos (conhecidos como Perpétuos).

Muito disso se deve a quando eu comecei a escrever Sandman. Foi em 1987 que eu comecei. Eu estava pensando que não existiam quadrinhos por aí com famílias – e eu amo a dinâmica familiar. Eu adoro a forma como as famílias funcionam ou não funcionam, adoro como se comportam, adoro como elas interagem e isso me pareceu que seria algo muito divertido para colocar na obra.

Quando eu vim para a América para sessões de autógrafos, as pessoas me diziam: “Nós adoramos os Perpétuos; nós adoramos Sandman e sua família, eles são uma família disfuncional maravilhosa.”
Não era uma expressão que eu não tivesse escutado antes, mas eu perguntei: “Um momento, me explique, o que é uma família disfuncional?” E as pessoas me explicariam, e depois de algum tempo eu me dei conta de que o que os americanos chamam de “família disfuncional” é o que na Inglaterra nós chamamos “família”. Eu nunca topei com uma dessas famílias funcionais.

Leia a entrevista completa aqui.


Dizem que a inveja é um pecado mortal...

Descreva um dia de trabalho. Como você escreve?

Se estou escrevendo um livro, eu provavalmente acordo pela manhã, confiro e-mails, talvez meu blog, resolvo emergências e então me dedico a escrever das 13:00h às 18:00h. E vou escrever longe, a uma distância segura do computador. Se eu não estiver escrevendo um livro, não tenho programação, e roteiros e introduções e o que for podem ser escritos a qualquer hora e em qualquer coisa.

Leia a entrevista completa aqui.


Página do livro de scketches de Neil Gaiman.


Em Credo (Em que eu acredito), que abre a primeira seção do livro, você escreve: “Eu acredito que eu tenho o direito de pensar e falar coisas erradas.” Você acha que na sociedade de hoje – particulamente por causa das redes sociais e do ciclo de notícias 24 horas – que não deixamos as pessoas estarem erradas o suficiente?

O que eu tenho a tendência de ver acontecendo é mais e mais pessoas se refugiando em suas bolhas. As pessoas estão assustadas de fazerem a coisa errada ou de serem xingadas e por isso formam vilarejos onde todos concordam uns com os outros e então eles podem ir até o outro vilarejo e atacar as outras pessoas que moram lá apenas pela diversão, mas não existe qualquer intercâmbio de ideias.
Eu acho que temos que encorajar a ideia de que nos é permitido pensar coisas. Eu pensei muitas coisas idiotas ao longo dos anos, e eu posso te dizer que não existe nada idiota demais que eu tenha pensado que alguém tenha me feito mudar de ideia porque me xingou ou me ameaçou de morte. Por outro lado, ter ótimas conversas com bons amigos, provavelmente bebendo, definitivamente mudou minha linha de raciocínio e me fez pensar que poderia melhorar. Nos é permitido melhorar, mas nós temos que deixar que as pessoas melhorem. 

Leia a entrevista completa aqui.



Gaiman no set da série Deuses Americanos.


Parece que você está, lentamente, se tornando um escritor de prosa. Você tem planos de voltar aos quadrinhos?

Bem, não estou escrevendo muito quadrinhos nesse momento. Suponho que eu me tornei bom escrevendo quadrinhos. Eu aprendi minha arte. Por 8 ou 9 anos eu fui realmente um roteirista de quadrinhos. E eu fiquei muito bom nisso. Por outro lado, quando estava escrevendo Sandman, tinha outras coisas que eu queria fazer, a maioria das quais eu não podia naquela época. Bons Augúrios, que eu co-escrevi com Terry Pratchett, foi escrito em 1989, quando eu levava duas semanas para escrever uma edição de Sandman. Então eu tinha bastante tempo livre, certo? E eu queria escrever mais prosa – eu queria fazer televisão e cinema e eu queria escrever uma peça – mas eu não tinha tempo sobrando. A maior parte do que venho fazendo desde que finalizei Sandman são coisa que eu não podia naquela época, como colocar Neverwhere como uma séria na BBC, o que eu aprendi muito, ou meu episódio de Babylon 5, que me mostrou que eu poderia conseguir de verdade fazer algo parecido com o que eu gostaria de ver na TV. E essas são coisas que eu ainda não sou – pelo menos na minha opinião – muito bom em escrever. Eu ainda não escrevi um livro que eu ficasse completamente satisfeito. Stardust foi o mais próximo que eu cheguei disso. Eu estava muito mais satisfeito com ele do que com Neverwhere, como qual eu não estava super feliz. Foi um bom começo. Eu espero que no próximo, eu acerte a mão. Eu quero fazer outra série de TV agora, porque acho que aprendi o suficiente para fazer uma com a qual fique contente. Fazer um filme. Foi bom fazer o roteiro da Princesa Mononoke. É muito diferente de escrever quadrinhos. São mídias diferentes, quadrinhos sendo uma coleção de imagens estáticas, eu acho, tem muito mais em como com a prosa do que com um filme. Criam-se efeitos muito mais próximos da prosa. Com filmes, a coisa está se movendo o tempo todo. Personagens  estaco fazendo coisas o tempo todo, falando de verdade. Você tem que ser menos obsessivo com sua criança. Você não pode ter algo que você acha que é perfeito, absolutamente o que você quer: você tem que saber que não, é apenas um diagrama. Eu apenas quero criar coisas, na verdade. Toda a minha vida, eu achei que estava escapando de algo porque eu estava inventando coisas e descrevendo elas no papel. E que um dia alguém bateria na porta, e um homem com um prancheta estaria na soleira e diria: “Aqui diz que você apenas andou inventando coisas por todos esses anos. Agora está na hora de sair daí e ir trabalhando no banco.”
Porque minha avó ou quem quer que fosse sempre me avisava, como eles avisam as crianças: “Não invente coisas! Você sabe o que acontece com meninos que inventam coisas!” Mas eles nunca te contam o que acontece. Mas o que posso dizer até agora, que o que aconteceu envolveu poder ficar muito em casa, algumas viagens internacionais, ficar em hotéis bacanas e conhecer muita gente legal que quer que você autografe coisas para elas. É isso.     

Leia a entrevista completa aqui.

A biblioteca particular de Neil Gaiman.


Nuno, membro do Goodreads (site equivalente ao Skoob) pergunta: “Como fã de FC e Fantasia, eu sou frequentemente confrontado por pessoas que desprezam esses gêneros como sendo escapismo – e nada mais. Mas eu sempre gostei que Ursula K. Le Guin disse que o propósito da FC é ‘descrever a realidade, o mundo atual.’ Qual, você diria, é o propósito da Fantasia e FC?”

Eu acho que o propósito é nos mostrar o mundo em que vivemos em... sobre um ângulo levemente diferente. Em um no qual nunca o vimos antes. A grande coisa de ver algo familiar sob um ângulo levemente diferente é que você pode vê-la novamente pela primeira vez. Você pode vê-las sem todas as pré-concepções que você construiu.Se você acha que pessoas e coisas são de um jeito, a melhor coisa da FC e da Fantasia é que elas podem te passar a mensagem fundamental de que as coisas não precisam ser assim. As coisas podem ser diferentes. E isso é incrivelmente libertador.

As pessoas dizem que são coisas escapistas, mas também tem as coisas boas. Mas você não decide o que é escapista e o que é bom. E ficção que te permite escapar é sempre maravilhosa.

Um dia desses eu escutei uma entrevista na rádio BBC sobre um homem que havia aprendido a ler direito na prisão. E ele estava falando sobre o fato de que a melhor coisa sobre ler era que ele não precisava estar na prisão enquanto lia. Sim, ele estava na prisão, mas lá tinha livros. E agora que ele os podia ler, ele podia estar na Jamaica, ir para a América e passar por essas aventuras e até viajar no tempo. E eu pensei, ele está dizendo algo muito verdadeiro. Não é escapismo – é escapar. E quando você escapa, não é apenas uma escapada. Porque você voltará, e você estará diferente. Você estará armado com ferramentas, armas e conhecimento. E coisas que você não sabia antes.  

Leia a entrevista completa aqui.


segunda-feira, 14 de abril de 2014

CARL GUSTAV JUNG - Entrevista



Carl Gustav Jung foi um psiquiatra e psicoterapeuta suíço que fundou a psicologia analítica. Jung propôs e desenvolveu os conceitos da personalidade extrovertida e introvertida, arquétipos, e o inconsciente coletivo. (do Wikipédia)


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

HARRISON FORD - Entrevista



Apesar de seu talento limitado, Harrison Ford teve carisma, sorte e inteligência suficiente para dar vida a alguns dos maiores personagens cinematográficos do século XX.

Infelizmente, a entrevista legendada é de um talk-show e por isso mesmo, bastante superficial. Para compensar, encontrei uma entrevista sem legendas realizada por Anne Thompson, uma colunista do jornal Variety, a mais respeitada publicação sobre entretenimento nos EUA. Nela, Harrison Ford tem a oportunidade de falar mais profundamente sobre sua carreira e sobre a indústria.





quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

NEIL GAIMAN – Entrevista sobre pirataria na WEB




Neil Gaiman fala aqui o que muitos cinéfilos e leitores que fazem donwloads de filmes, livros e comics já sabem mas que muitas empresas e artistas ainda não perceberam. Quando comecei a fazer downloads de quadrinhos na internet, já fazia alguns anos que acompanhava de longe o mercado e comprava, no máximo, uma graphic novel por ano de um artista que já conhecia. A possibilidade de baixar milhares de obras conhecidas e desconhecidas me fez voltar ao velho vício dos quadrinhos, conhecer dezenas de autores novos e voltar a comprar quadrinhos regularmente, tanto para ter algumas das boas obras que li no PC, quanto para acompanhar o trabalho de novos autores que, talvez nunca tivesse conhecido se não os tivesse baixado. E já faz uns 7 anos que voltei a comprar uma média de 12 graphic novel por ano. Um aumento de 1.200% do que eu costumava comprar. O mesmo vale para livros, séries e filmes que baixei.

E você, também acha que compra mais quadrinhos, revistas, séries e filmes desde que começou a baixá-los?

sexta-feira, 13 de maio de 2011

CARL SAGAN (1934 – 1996) – Entrevista




Em 1983, a Rede Globo tinha uma programação muito superior a de hoje e naquele ano a série COSMOS era exibida em horário nobre. Apresentada por Carl Sagan, a série falava sobre a Terra, o Sistema Solar, o Universo, sobre a sede de saber e dos mistérios e desafios que aguardavam a espécie humana no futuro.
Eu, que na época já me interessava por astronomia, fiquei ainda mais entusiasmado graças a esse astrônomo que foi um dos maiores divulgadores da ciência do século XX.
Infelizmente esse cientista carismático nos deixou cedo demais, mas deixou um maravilhoso legado para milhares de jovens e adultos que devem à ele o fato de há décadas olharem a vida e o universo com outros olhos.




terça-feira, 12 de abril de 2011

PEDRO ZIMMERMANN - Entrevista




Pedro Zimmermann é roteirista, diretor e meu amigo desde a 7ª série. De lá pra cá já se passaram 31 anos. Nesse tempo todo, Pedro se dedicou à publicidade e ao cinema, sua grande paixão. Escreveu roteiros de institucionais (vídeos de empresas), comerciais, curtas, séries e longas de ficção. E também já faz algum tempo que ele anda sentando na cadeira de diretor. E eu fico contente por ver que ele também luta por realizar seus sonhos forjados na adolescência. Nesta entrevista ele fala sobre como tudo começou, as dificuldades, os sucessos e seus próximos projetos.


Quando surgiu seu interesse pela literatura e cinema?

Como tantas outras crianças eu gostava de ler, de assistir filmes e desenhar. A diferença é que, em algum momento, decidi que essas atividades iam me acompanhar pela vida afora.

Sua família apoiava seu interesse nessas áreas?

Até certo ponto, sim. Quando descobriram que eu estava decidido a fazer disso uma profissão, acho que se assustaram.

Na adolescência, você foi co-fundador do GÊNESIS, um grupo dedicado ao gênero Fantástico no cinema, literatura e quadrinhos. Fale um pouco sobre essa experiência e o efeito que teve na sua decisão em buscar uma carreira na área audiovisual.

Foi muito importante, sim. Era um jeito de saber que a gente não estava sozinho em nossos gostos "excêntricos". Compartilhar das mesmas preferências cinematográficas e literárias não era uma experiência tão simples. Era preciso garimpar os amigos. A gente sabia o que era uma rede mundial de computadores, mas não tinha em casa.


O Grupo Gênesis e seus integrantes entusiastas do Fantástico em 1985:
Entre muitos, Pedro Zimmermann (ao centro, de camisa branca) e Jerri Dias (no chão, segurando o cartaz).

Suas primeira tentativas de escrever roteiros de ficção foram bem sucedidas?

Posso dizer que sim. Na época da escola eu escrevia sem a menor auto-crítica.

Você optou pela graduação em Publicidade e Propaganda. Porquê?

Era a experiência mais próxima do cinema que alguém podia ter em Porto Alegre. Minha primeira pergunta ao entrar na URGS foi: "Quando é que abre o curso de cinema"? Até hoje não abriram.

Após sua formação, você acabou dedicando-se muito mais a roteiros publicitários e audiovisuais empresariais do que a roteiros de ficção. Isso foi uma decisão própria ou outros fatores o motivaram a seguir esse caminho?

Nunca deixei a ficção de lado. E sempre encarei o trabalho na área publicitária como uma forma de me manter ativo na área, exercitando minha escrita.

Porque ser roteirista?

Para sonhar de olhos abertos.



Trailer do curta FUTUROLOGIA (2005).


Quanto tempo você levou para se estabelecer como um roteirista profissional de ficção?

Uns dez anos. Foi um processo bem gradual e incompleto. Hoje estou mais interessado em desenvolver minha carreira como diretor.

Quais seriam as grandes influências no seu trabalho?

As influências são bem diversas. Vão do cinema clássico aos filmes mais obscuros, sem preconceitos de nenhuma espécie. Do Spielberg ao Tarkowsky, passando por George Lucas e Andrezj Zulawsky. Nessa mistura tem doses de Wong-Kar Way, Jean Cocteau, Orson Welles, Ridley Scott, Paul Schrader e Paul Thomas Anderson.

Qual é o seu método de trabalho para roteiros encomendados?

O ideal é entrar na "freqüência" de quem fez a encomenda. Criar uma identidade com o assunto, como faz o ator com seu papel. Ao mesmo tempo, procuro encontrar convergências com o meu próprio imaginário. Pode parecer esquizofrênico, mas funciona.

Como funciona seu processo de criação para roteiros de ficção?

É uma mistura de método e caos. Às vezes me deixo levar por conceitos e imagens, sem rumo certo. Em outros momentos tenho que organizar essa deriva criativa. Faço planos, esquemas, escaletas. E volto a mergulhar no sonho.


Clique para ampliar.


Depois de ter realizado muitos roteiros para outros diretores, você tem ocupado a cadeira de diretor em alguns curtas de ficção. Pode falar como foi essa transição?

Sempre considerei a atividade de roteirista como parte de uma estratégia para chegar à direção. E sempre pensei em termos de imagens. Então, dirigir foi um passo natural e necessário. O mais crítico, evidentemente, é gerenciar as diversas demandas criativas da equipe. Nos últimos anos, além da direção de curtas ficcionais, tenho realizado também documentários de curta e média-metragem. Acho que o tempo investido no estudo e na escrita dos roteiros me deu uma base mais sólida para essa carreira.

Você tem um trabalho que o tenha deixado insatisfeito com o resultado final? E qual o deixou mais satisfeito?

Dos erros cometidos por mim ou por terceiros, melhor nem comentar. Prefiro ficar com a parte positiva. Dois trabalhos que me deram grande prazer foram "Mapa-Mundi", curta de ficção com o Walmor Chagas que eu dirigi no ano retrasado, e "Arte, Ordem e Caos", um documentário de média-metragem sobre o processo criativo que me deu a chance de entrevistar gente como o Peter Greenaway e o Michel Houellebecq.

Fale sobre seus projetos atuais.

Tenho dois projetos prontos para sair do papel. "Eco de Longa Distância" é um "suspense metafísico", com roteiro premiado pelo MINC, que eu espero começar a filmar ainda no primeiro semestre de 2011. "Oxigênio" é uma série de ficção científica com efeitos visuais bem ambiciosos, selecionada para financiamento pelo Fundo Setorial do Audiovisual. Fiz em parceria com um grande amigo chamado Jerri Dias.





Alguma dica ou conselho para quem tem interesse em se tornar roteirista?

Todos somos diferentes. Então, acho que cada deve encontrar seu método, seu caminho. De qualquer forma, a paixão, a disciplina, a intensidade e o comprometimento com a carreira nunca fizeram mal em nenhuma atividade. Eu diria que o essencial é manter a curiosidade diante do mundo, uma capacidade que muitos tendem a perder quando se tornam adultos.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

ROBINSON PEREIRA - Entrevista

Robinson Pereira, escritor.

Conheci o Robinson Pereira no final de 2008 através de e-mail. Acho que ele me achou através deste blog e falou que era escritor de livros de espionagem e me mandou um livro pra eu ler. SOUVENIR IRAQUIANO. Eu gostei e fiz uma crítica. Agora o Robinson está lançando mais um livro de espionagem que deve ser tão bom ou talvez até melhor do que o SOUVENIR. Mestre em Literatura pela UFSC, sua pesquisa na universidade foi exatamente sobre a possibilidade do gênero de espionagem dentro da literatura brasileira.

Agora, conheça um pouco mais desse escritor e de sua paixão literária...

De onde surgiu a vontade de ser escritor?

Acho que isso foi uma coisa muito natural em minha vida. Desde os oito anos que eu curtia muito fazer histórias em quadrinhos. Nunca me vi, ao longo de toda minha vida – e hoje tenho 42 anos – distante do ato de contar histórias. Sempre me encontro absorto, imaginando uma história.

Porque escrever SOUVENIR IRAQUIANO, um thriller de espionagem, em um país onde 99% dos escritores preocupam-se quase que exclusivamente com o lado psicológico ou social de suas personagens e narrativas?


Gosto do tema. Gostei bastante, quando garoto, de 007. Vi no cinema “O Espião que me Amava”, com o Roger Moore. Isso foi em 70 e pouco, não foi? Antes, era fã do Mickey, mas somente das histórias nas quais ele era detetive. O nome Ian Flemming me despertava muita curiosidade antes mesmo de ler ou ver qualquer coisa sobre James Bond, apenas de ouvir falar.
Com o tempo – e isso foi um pouco antes de começar a escrever o Souvenir, que aconteceu em 1999 – eu fui me incomodando com o fato de não haver um imaginário do gênero no Brasil. Ficava realmente incomodado com isso. Sempre ouvia falar de espião no Brasil de forma pejorativa – odeio o apelido “araponga”.

Em 1988, quando saí da Academia Militar das Agulhas Negras e decidi fazer Comunicação Social (queria ser publicitário porque achava que me levaria mais para perto de aprender a lidar com vídeo, roteiros, etc), comprei um livro do Nelson Lopes, um jornalista brasileiro especialista em indústria bélica brasileira nos anos 80 do século passado. O assunto me interessava, era filho de militar, ouvia muito falar de Urutu, Cascavel, Taurus, Astros, essas coisas. No livro vi que o Brasil não estava muito longe dos eixos das grandes tramas de espionagem internacionais.

Isso me deixou mais incomodado ainda. Tinha (tenho) a impressão de que há um preconceito com a ideia do brasileiro poder ser um 007, ser um forças especiais... Poxa, no Exército, vi que americanos, franceses e ingleses vinham treinar aqui um monte de técnicas de combate. Saquei que o preconceito não procedia. Pior ainda, saquei, analisando a nossa história, que o nosso SNI foi treinado pelo MI6 e pela CIA, e que os caras fizeram um serviço muito efetivo (sem julgamento), pois desmantelou a nossa esquerda. Ou seja, não dá para chamar os caras de “araponga” querendo debochar, se na verdade os caras saíram por cima.

Tenho receio de falar isso e parecer ser alguém de direita. Muito pelo contrário. Espionagem e repressão existe em qualquer lado, desde a Kriptéia da Grécia antiga até a KGB da União Soviética, na Guerra Fria, e os serviços que ocuparam o seu lugar no novo modelo de sociedade russa. Onde quero chegar é que não dá para tapar o sol com a peneira, sei lá por qual motivo, e dizer que não temos histórias ligadas à espionagem.

O meu livro A Fronteira, que está disponível para download no meu blog prova isso. É todo baseado em fatos reais. O Souvenir Iraquiano, de certa forma, também. Tenho um projeto de romance baseado em uma operação de espionagem deflagrada pelo Brasil no Suriname. Uma coisa real. Por que não escrever sobre isso?

Daí comecei a procurar escritores do gênero no Brasil, e entender melhor o gênero e por que ele não se disseminou em outros países que não os de cultura anglo-saxônica. Daí saiu meu mestrado.

Capa do livro.

A crítica e os leitores receberam bem seu livro? Ainda existe um certo preconceito contra literatura "escapista", mesmo que não seja o caso de SOUVENIR IRAQUIANO?

Que existe esse preconceito, existe. A crítica adora ouvir alguém dizer que não busca inspiração, para seus livros, em outro lugar que não seja a sua própria existência. Poxa, então quem é que vai dizer de quem é a melhor ou a mais importante existência? Quem pode dizer que a vida de fulano ou de beltrano é mais literária? Na verdade, quando você senta para escrever um romance de espionagem, ou um thriller qualquer, a sua única intenção é entreter o leitor. Para isso, é preciso suar bastante. Isso requer muita pesquisa e trabalho duro. Não se produz esse tipo de literatura com trabalho intuitivo.

É engraçado que o mercado editorial brasileiro se apoia muito em livros-verdade, auto ajuda, etc, e produz sucessos como Bruna Surfistinha. Só que eu pergunto: quem é capaz de provar que ela não era uma personagem apenas? Qual o problema em criar uma “Michelle Tentação” e vender como se fosse autobiográfico? Basta perder algumas semanas lendo contos eróticos na internet, aqueles que teoricamente são contados pelos leitores, para ter uma seleção no imaginário sexual médio e daí ousar um pouco e produzir uma nova personagem “real”, contratando uma atriz e mantendo a farsa em segredo. Mas a idéia não é exatamente essa, não é? Eu quero escrever spy fiction porque sei, através de pesquisa, que temos muitas histórias boas para contar.

Li que existem planos para um filme... Se existe, em que ponto está esse projeto?

Um roteirista e um produtor demonstraram interesse pelo livro, mas ainda está apenas no campo da conversa. Não há nada sólido.

Fale sobre suas obras anteriores:

Eu escrevi um romance beatnik chamado Diário de Um Intelectual à Deriva, um verdadeiro livro de bolso. Dá para encontrar exemplares novos em sebos on-line, para quem tiver curiosidade. Escrevi também o argumento do curta-metragem “Atraídos”, produzido em 35mm, com o Herson Capri e a Flávia Monteiro.

Algum novo projeto em andamento?

O romance A Fronteira, também de espionagem, está concluído e pode ser baixado no meu blog. É uma história que se passa na África, no início dos anos 1980, envolvendo guerrilhas africanas, a CIA, o Mossad e o SNI. É todo baseado em fatos reais. Eu poderia dizer que o livro trata de fatos que precederam o assassinato do jornalista brasileiro Alexander V. Baumgarten. Estou agora trabalhando agora em um romance de guerra e espionagem ambientado na Guerra das Malvinas e 20 anos depois. Tive apoio da nossa Marinha de Guerra para a pesquisa do livro. Devo concluir em alguns meses. O próximo trata de uma operação secreta do serviço de inteligência do Brasil no Suriname, que resultou em um incontrolável banho de sangue. Também baseado em fatos verídicos.

Lançamento no dia 20 de julho.
Faça o download do livro completo aqui.
Ou encomende direto com o autor através do e-mail: textosecreto@gmail.com


Qual a maior dificuldade, para você, em ser escritor? Emocional e financeiramente falando...

A dificuldade é encontrar espaço em um meio em que as traduções são mais valorizadas porque já chegam ao Brasil com todo o trabalho de marketing já feito. Os agentes literários e editoras não estão nem aí para os valores nacionais emergentes, simplesmente porque não querem correr riscos. Não é difícil escrever acima da média dos Best-sellers internacionais do gênero. O difícil é conseguir alguém que aposte e faça o trabalho de marketing para divulgar e vender o livro. Por isso os nomes que despontam em nossa literatura geralmente já são consagrados em outros setores, ou são extremamente oportunistas.

Robinson está ansioso para saber o que os leitores acham do seu novo livro...


Se gostou da entrevista, não deixe de acompanhar o blog Texto Secreto.