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terça-feira, 22 de agosto de 2017

RELACIONAMENTO: Relações de Poder - Ensaio



Relações de Poder acontecem o tempo todo na sociedade (e no mundo animal também). Umas das mais óbvias é a do patrão e empregado. Mas existem as mais sutis como entre colegas de escritório, de sala de aula e a mais sutil e complicada de todas, a que acontece entre casais.

Casais deveriam, a princípio, ser companheiros, parceiros e sócios na vida. Onde decisões importantes deveriam ser tomadas em conjunto e onde decisões e desejos individuais fossem respeitados pelo outro.
Mas devido a falta de Inteligência Emocional da maioria das pessoas, não é bem assim que acontece.


O individualismo moderno tem dificultado até mesmo acordos simples entre casais.


Na época de nossos avós e em certa medida, na de nossos pais, quem costumava dominar a relação em sua maior parte era o lado masculino por conta da cultura machista bastante dominante. As mulheres tinham pouca voz em decisões importantes que não fizessem respeito aos filhos ou a manutenção da casa. Já nas últimas décadas a mulher tem assumido cada vez mais espaço no mercado de trabalho e até mesmo se tornado maioria em muitos cursos universitários. Esse lado positivo da luta feminista, infelizmente cresceu junta à uma cultura capitalista que incentiva cada vez mais o consumismo (de coisas e pessoas) e o individualismo.

Esse individualismo que cresce cada vez mais parece estar afetando bastante, de forma positiva e negativa, a formação e manutenção dos casais. No fim das contas, talvez seja o capitalismo que acabe destruindo a família (diferente do socialismo ou dos gays). Positiva, porque com a liberdade financeira que muitas mulheres adquiriram, elas não precisam mais se sujeitar a ficar com qualquer um. Negativa porque graças a facilidade de se descartar as pessoas, tanto homens como mulheres, desistem rapidamente de relacionamentos que não se encaminham do jeito que cada um quer. Cada um quer manter o seu poder de forma constante dentro da relação, sobrepor seu individualismo sobre o do outro e não admite que seu ego seja desafiado.



Tudo piora quando o dinheiro é usado como moeda de troca/abuso dentro da relação.


E na questão financeira talvez tenhamos a mais vil das formas de relação de poder entre um casal. Porque a torna (ou pode tornar) quase uma relação entre patrão e empregado. E ninguém gosta de viver em casa a mesma situação de subserviência que vive no trabalho, sendo cobrado ou mesmo com medo constante de perder o relacionamento. Não é à toa que muitas mulheres se separam de seus maridos após passarem em um concurso público onde sabem que terão renda garantida pra toda a vida.

Existem casais cuja relação de poder financeira consegue ser equilibrada. Seja porque ambos ganham mais ou menos o mesmo salário, seja porque existe amor/acordo/companheirismo suficiente entre ambos que permite que o outro fique tranquilo quanto ao fato de ganhar menos ou mesmo estar desempregado em alguns momentos da vida. A chave é que ambos saibam que um sempre buscará amparar o outro. Afinal, um dos motivos psicoemocionais para buscar uma relação é justamente se sentir protegido e poder confiar na pessoa amada.



É possível voar junto. 
Mas ambos tem que querer.


No entanto, esse tipo de caso parece ser mais exceção do que a regra, pois é comum que muitos de nós já tenhamos estado em uma ou mais relações onde pode ter usado o poder financeiro para barganhar ou mesmo exigir coisas do parceiro. Ou tão ruim quanto, tenha estado do outro lado da moeda, onde foi chantageado ou se submeteu por livre e espontânea vontade porque era necessário naquele momento. Esse é um comportamento doentio da nossa cultura, onde é muito comum o macho da nossa espécie cobrar favores sexuais porque pagou uma janta ou drinks na balada. E embora muita gente esteja se dando conta de que isso é realmente idiota, ainda é bastante comum que a maioria das  mulheres aceitem e se submetam à isso.  Infelizmente o inverso também é verdadeiro com mulheres que pagam, embora aconteça menos. A exigência das mulheres não vem necessariamente com favores sexuais, mas com um sentimento de posse.
Aparentemente, a ideia que passa na cabeça dessas pessoas é que se pagou algo para o outro, o outro é considerado comprado e agora é seu. A tal cortesia do "estou te convidando", na grande maioria das vezes, só vale mesmo se for entre amigos onde não haja interesse sexual.

Mas em alguns raros casos, a relação de poder financeira entre um casal pode ser tão sutil que mesmo parecendo boa, um dos cônjuges pode se ressentir tanto da situação de dependência do outro ao longo dos anos que pode um dia se cansar disso e não ver solução senão sair daquela relação, mesmo sem que nada realmente grave tenha detonado o gatilho para justificar a separação. Nesse caso, o conflito é interno de apenas um dos membros do casal, que por orgulho ou ego não consegue desatar esse nó dentro de si e só vê saída  deixando o outro.




Quando o relacionamento chega ao ponto de literalmente escravizar o outro.


Eu poderia falar de outros níveis de relação de poder dentro de um relacionamento, mas eu queria mesmo era falar da questão financeira mesmo, porque isso afetou muito a minha vida e vejo acontecendo muito com amigas e conhecidos. E de qualquer forma, tem outros textos muito bacanas sobre o assunto e que aprofunda mais os outros tipos de relações de poder dentro da relação. Leia no link abaixo o divertido e perspicaz ensaio de Anderson Yankee.

OS JOGOS DE PODER EM RELACIONAMENTOS CONJUGAIS: SOBRE AS PESSOAS QUE TÊM A NECESSIDADE DE SE SENTIREM SUPERIORES



sábado, 18 de março de 2017

SOBRE PSEUDOEXPLICAÇÕES - Humor






SOBRE PSEUDOEXPLICAÇÕES QUE AS PESSOAS CRIAM NAS SUAS MENTES 
PARA DAR SENTIDO A SUA IGNORÂNCIA E PRECONCEITO


POLÍTICA

Neoliberais conservadores odeiam comunistas/socialistas modernos porquê eles vão tomar suas terras, casas, carros, celulares, cuecas, calcinhas e o conteúdo de suas geladeiras para dividir com todo mundo.



RACISMO

Brancos racistas odeiam negros e índios porquê estes últimos querem ter os mesmo privilégios e freqüentar os mesmos restaurantes, transar com mulheres brancas e até pegar suas vagas na universidade para dominarem tudo e finalmente escravizarem o homem branco.



FEMINISMO
Homens machistas odeiam feministas porquê elas vão colocar eles pra cuidar das crianças e da casa, concorrer de igual pra igual no trabalho, assumir cargos de comando em todas as áreas e mandar castrar todos os homens.



HOMOFOBIA
Pessoas homofóbicas odeiam LGBTs porquê a Bíblia disse, porquê eles trocam carinho publicamente, porquê não se pode ficar de costas para eles e porquê vão influenciar seus filhos e talvez elas mesmas a se tornarem homossexuais e travestis (e muitos podem acabar gostando).



VEGANISMO

A maioria carnista odeia vegetarianos e veganos porquê eles protestam contra a tortura de animais, criticam o sistema atual do agronegócio e pior,  vão colocar o churrasco no lixo, tirar a carne da boca deles e instaurar um tribunal internacional para julgar e condenar todos os comedores de carne à uma vida e morte similar a dos animais de abate. 



sábado, 19 de julho de 2014

PROCESSO CRIATIVO - Ensaio



Bom, falar sobre processo criativo é algo que pode tomar um livro inteiro e já tem alguns livros bacanas sobre o assunto por aí. Então, para dar uma visão mais pessoal sobre isso, vou falar um pouco sobre como funciona o meu processo criativo.

Bom, ele funciona na base do caos e da organização, como acho que é o processo da maioria das pessoas ditas criativas.

Acho que pra começar, é bom me referir as minhas principais fontes de criatividade:
imagens de revistas, música instrumental (erudita e trilhas sonoras de filmes), matérias sobre os mais diversos assuntos, conversas aleatórias com pessoas de qualquer idade, quadrinhos, teatro, livros e filmes. Ah, elas também vem de sonhos, sonhos são sempre uma fonte riquíssima para mim e já produzi uma graphic novel e um curta com base neles.


 

Como qualquer profissional da cultura diria, sem ter uma boa (de preferência, vasta) bagagem cultural, fica difícil ser criativo de uma forma original, pois o que se espera de um verdadeiro artista não é que ele fale ou mostre coisas nunca antes ditas ou exibidas, já que isso é praticamente impossível nessa altura da história humana, mas que ele dê sua visão pessoal e procure novos meios de contar ou mostrar uma narrativa.
Essa é a parte caótica do meu processo, não tenho muito controle sobre ela e as ideias simplesmente surgem quando alguma sinapse dá certo no meu cérebro.

Agora, a parte organizada dele, que pode ser tão chata quanto excitante.
Como muitos aqui, sou uma pessoa eclética, me interesso por todo tipo de assunto (ok, confesso que fofocas de celebridades não me interessam) e um pretenso escritor ou roteirista que tenha pouco interesse ou curiosidade pelo mundo e não pesquise sobre tudo o que pretende escrever está na área errada.

Então, ás vezes pode parece chato ter que pesquisar sobre algum assunto técnico do qual entendo pouco ou nada, mas à medida que vou entendendo, começo a vislumbrar novas possibilidades de usar aquilo de outra forma na narrativa, geralmente melhor do que a pensada originalmente.




Uma boa pesquisa resolve bem a parte técnica e dá segurança para escrever sobre os assuntos de que a obra vai tratar, mas não os problemas com personagens ou encruzilhadas em que me coloco quando estou escrevendo e não sei em que direção vou. Ou pior, me vejo em um beco narrativo sem saída.

Quando isso acontece, uso os seguintes métodos:

1) Converso com um ou mais colegas que considero inteligentes e criativos para me ajudarem, assim como ocasionalmente ajudo eles.

2) Fico pensando nos problemas enquanto caminho para fazer às coisas do dia-a-dia. E é impressionante como isso ajuda. Aquele papo de sair de casa para arejar a cabeça realmente funciona.

3) Ao acordar, nossa mente está fresquinha de uma boa noite com o inconsciente correndo livremente e a melhor coisa antes de sair da cama e poluir ela com a rotina do dia é pensar em soluções para conflitos narrativos. Já resolvi muita coisa assim. Ah, também serve para problemas pessoais ;-)

4) Pago um escritor fantasma para escrever no meu lugar. Hehe, este é brincadeirinha. Não tenho dinheiro para isso... :-( 

E também tem aquele processo criativo super especial, que ocorre quando estão me pagando para criar em um curto espaço de tempo. Nessas ocasiões em que alguns se entregam ao pânico e pensam em suicídio, eu geralmente fico calmo, pois um cérebro acostumado a criar é como um atleta bem treinado: na hora em que você precisa mostrar serviço, ele funciona. Claro, nem sempre esse tipo de trabalho fica como eu gostaria, mas todo mundo sabe que pouco prazo e alta qualidade não são os melhores parceiros.
Também entra aí a questão de orçamento, quando se trata de curtas, onde tenho que procurar soluções narrativas e visuais para filmar algo da forma mais econômica e criativa possível. No roteiro pode até parecer ser viável, mas às vezes surgem complicações e tenho que criar toda uma cena nova em poucos minutos, pois a máxima “tempo é dinheiro” nunca foi tão verdadeira como num set de filmagem profissional. E nessas horas ajuda muito ter prestado atenção no que os roteiristas e diretores talentosos fizeram em seu filmes, pois tem sempre algo que dá pra adaptar para o meu curta.

 


Pra finalizar, vou comentar sobre como foi o processo criativo de dois trabalhos meus que curto bastante.

ZARATHUSTRA – Graphic Novel

Gosto muito de escutar trilhas sonoras e música clássica. São muito inspiradoras. E foi escutando a trilha de Powaqaatsi, de Philip Glass, meu compositor erudito contemporâneo preferido (e que tive o prazer de ser cicerone alguns anos trás) que imaginei a premissa para essa graphic novel de FC. A música começava com um som de avião e comecei a me imaginar flutuando entre as nuvens e um Boeing passando pelo local e me avistando. Fiquei imaginando qual seria a reação do piloto e dos passageiros ao ver uma pessoa flutuando entre as nuvens. Em questão de segundos me substituí por uma entidade humanóide não-identificada e comecei a imaginar qual seria a reação do mundo ao descobrir isso. E se a criatura simplesmente ficasse parada lá, sem se comunicar nem fazer absolutamente nada?

Corri para escrever um microconto de uma página sobre o que havia imaginado.
Acabei transformando em um roteiro de HQ de 7 páginas onde, apenas através de imagens eu mostrava um mundo em convulsão social, política, religiosa e científica pelos simples fato de uma entidade humanóide sem rosto pairar nos céus. Um amigo desenhista ilustrou na época, de forma amadora.

Anos depois, encontrei um outro ilustrador, Daniel Moraes, que gostou muito da história e propus a ele que produzíssemos uma graphic novel a partir daquela HQ curta.

Eu já tinha todos os acontecimentos alinhados, só me faltava criar um elo mais humano para contar a história. Decidi que seria o piloto do avião, a primeira pessoa a ver a entidade, e que seguiríamos sua história, de sua irmã e de um padre amigo dele.

Com esses personagens eu poderia falar de perda, fé, religião e esperança sem cair em discursos vazios demais ou cheios de clichê. Entrevistei um iman muito simpático duas vezes na minha pesquisa e tentei entrevistar um bispo, mas tinha que passar por trâmites burocráticos e minha carta sequer foi respondida. Tive que me contentar com entrevistas do clero em revistas, sites e livros.

E como cineasta, prezo muito o valor de uma imagem e evito dizer aquilo que não precisa ser dito, pois acho que o leitor pode muito bem preencher os o que se passa na cabeça dos personagens se ela der pistas suficientes.

Ou mesmo deixar o leitor livre para imaginar o que quiser de determinada cena.
No caso de ZARAHUSTRA, existem muitas páginas sem texto algum e uma seqüência completa de 8 páginas seguidas sem uma linha sequer.

Creio que demorei 5 meses para finalizar o roteiro de 90 páginas. Claro, eu tinha outros trabalhos em andamento, se tivesse me dedicado integralmente teria conseguido completá-lo em metade do tempo.

O resultado foi bastante satisfatório em vários aspectos e a obra recebeu boas críticas, especialmente em relação ao roteiro, mas eu me ressinto de não ter conseguido deixar um final mais claro. Na minha cabeça estava tudo muito bem, mas quando percebi, a maioria dos leitores acreditava em um final que não era o que tinha em mente.


 A seqüência de 8 páginas sem diálogos.

  Arte de Daniel Moraes.

 Clique para ampliá-las.






  
DESAPARECIDO – Curta

Assim como outras de minhas criações, essa surgiu a partir de um pesadelo onde minha ex-mulher morria. Não lembro se era atropelada ou o quê, mas a sensação de angústia e medo da perda permaneceu comigo por tempo suficiente para que eu escrevesse um roteiro sobre isso. Mas ele tinha que ser um roteiro do gênero fantástico, pois dramas comuns sobre pessoas perdendo entes queridos ou superando a morte dos mesmos existem muitos.

Me veio a ideia de que a pessoa não necessariamente precisaria morrer, mas sim desaparecer da vida outra. Mas teria que ser como se estivesse morta. Lembrei de desaparecidos políticos e em como as famílias, apesar de os saberem mortos, continuam com esperanças, pois uma pessoa desaparecida não dá a pessoa que fica uma resolução, um final, tudo fica suspenso, uma espera eterna.

Então a pessoa desapareceria no meu curta. E seria procurada. E nenhuma pista seria encontrada. Como não seria encontrada? Fazendo parecer com que ela jamais tivesse existido. Acho que essa idéia eu peguei ou busquei no meu inconsciente do filme CIDADE DAS SOMBRAS, onde a memória e a vida das pessoas eram alteradas. E assim como no filme de Proyas, no meu só a esposa do marido desaparecido lembraria de sua existência, mas as provas de sua vida teriam desaparecido física e mentalmente.

Ok, ângulo similar ao longa, mas como trabalhar isso de forma diferente? Cavando mais fundo e fazendo disso um drama fantástico sobre o luto, utilizando as 5 fases do luto descritas pela psicóloga suíça Elisabeth Kubler-Ross. Acabei utilizando apenas quatro, mas elas estão lá, na estrutura do roteiro, o que me facilitou bastante em como dar o ritmo correto para o filme.
Para ajudar ainda mais, decidi criar todo um storyboard fotográfico com as atrizes principais. Isso facilitou a visualização da história por todos os membros da equipe, que conseguiram assim sentir o clima da história antes de vê-la pronta.

No fim das contas, acho que consegui um curta razoavelmente denso e até hoje foi o que mais me deu satisfação em termos de criatividade.



DESAPARECIDO from Jerri Dias on Vimeo.


domingo, 9 de março de 2014

O HUMOR POLITICAMENTE (IN)CORRETO - Ensaio

Qual, afinal, o objetivo desta piada? Dizer que as mulheres são interesseiras ou mostrar o simples absurdo de um gato rico? Ou seria os dois?




“O humor compreende também o mau humor. O mau humor é que não compreende nada.”

Millor Fernandes


Acho que o problema da patrulha ideológica sobre piadas é que em geral ela é feita por pessoas radicais e muitas vezes de inteligência limitada (não é caso de muitas pessoas, óbvio). Um bom exemplo foi a censura brasileira na ditadura, que cometia os desatinos mais imbecis. Não vou dar exemplos, é fácil encontra-los por aí em sites sobre censura nos anos 60 e 70. Bem, o politicamente correto é mais ou menos a mesma coisa, só que ao invés de ser um bando de idiotas censurando sem ter conhecimento de causa e baseado em regras e preconceitos próprios, temos agora a sociedade inteira fazendo isso e espero que alguém concorde comigo que pelo menos grande parte da sociedade brasileira é formada por idiotas (do povo aos altos escalões governamentais). Se a censura contra piadas misóginas, pró-estupro e racistas fosse feita por uma comissão de humoristas profissionais respeitados de ambos os sexos, eu realmente levaria a sério o que eles tem a dizer sobre cada piada. A questão é que como cada um de nós tem uma agenda, um estado de humor diferente a cada dia, uma história de vida e culturas diferenciadas, percebemos piadas de modos diferentes e nem sempre o que soa ofensivo pra um soa pra outro. O que não quer dizer que um seja misógino e outro não. Tenho duas amigas que odeiam piadas politicamente incorretas (pelo menos já discutimos horrores sobre isso na época da polêmica do Rafinha Bastos) e uma riu da piada do gatinho acima, a outra, odiou e achou machista. Eu acho que o foco da piada é o fato de ser um gatinho (felino) com dinheiro. E não que mulher seja interesseira. Pelo menos foi pra mim.

Já topei com piadas idiotas e imbecis pró-estupro, misóginas, etc nas redes sociais e devo ter postado meu desagrado nos comentários. Mas tinha gente rindo delas. Sempre tem quem ria. Mas eu acho que, como sempre, a preocupação excessiva com a última ponta da cadeia da produção não é o que irá efetivamente mudar algo. A piada, por si só, é apenas algo que é dito ou mostrado e as pessoas riem (ou não). Nada acontece por causa de uma piada. Onde a merda acontece é nas casas das famílias onde pais e mães criam filhos e filhas para serem adolescentes e adultos machistas, sexistas, misóginos desde pequenos. Piadas sobre esse tipo de coisa eles só vão escutar a partir dos 12, 13 anos entre a galera, que são pessoas com mais ou menos a mesma mentalidade. E é o comportamento deles, muito mais que as piadas, que vão reforçar suas atitudes perante o sexo oposto. Não é uma piada que faz isso. As pessoas não contam piadas o tempo inteiro umas para as outras, mas falar mal de um gênero, desrespeitar com provocações e até mesmo tocando uma mulher sem permissão, são atitudes 10 vezes piores que contar uma piadinha entre amigos. E o fato de proibir a piada de ser contada, não vai mudar em nada a atitude e pensamento deles. Sejam eles racistas ou misóginos. Só vai impedir que tanto boas quanto más piadas sejam criadas sobre o assunto. Nada mais.


Milhares de pessoas indignaram-se nas redes sociais com o 2º e 6º item, que sugere um estupro.


Um exemplo do ponto que chega essa burrice do politicamente correto: um conhecido meu, branco, estava no escritório central do PT e tinha uma mulher do Movimento Consciência Negra lá. Não lembro se ele estava falando com ela ou se ela apenas estava por perto, mas em dado momento ele comentou:“minha mesa é um buraco negro, não acho nada aqui”, referindo-se a bagunça da mesa. A mulher então o interpelou dizendo que esse termo era pejorativo e que ele não podia falar aquilo. Bom, aí está um exemplo claro de uma pessoa de conhecimento limitado, que não sabe do que o outro está falando e que acha que tem o poder de mudar denominações criadas pela sociedade astronômica internacional somente porque contém a palavra “negro” nela.

Acho que as pessoas tem que ser livres pra contar qualquer tipo de piada, por mais racista ou sexista que seja, por que se eles não contam na nossa frente, eles contam escondidos entre eles e na nossa frente usarão máscaras hipócritas de civilidade. Eu acho ótimo que esses imbecis deem a cara a tapa na internet ou nas mesas de bares para que se saiba quem são eles para que possamos denunciá-los (quando for necessário) ou excluí-los de nosso círculo de amizades ou redes sociais.

O humor, a piada ou o chiste feito com ironia, sarcasmo e inteligência é uma das poucas coisas que realmente nos diferencia dos demais animais. Tanto que mesmo para entendermos piadas mais sofisticadas, temos que ter uma certa maturidade mental para entendê-las. Querer censurar e limitar a criatividade humana nesse sentido é perigoso, já que na Europa e Oriente Médio, pessoas que fazem piadas com Maomé ou Alá são ameaçadas de morte. Se continuar assim, todos poderão alegar que uma piada ofende determinado grupo, ideologia, religião, modo de vida e podemos acabar limitados a piadas do tipo “o que o tomate disse pro outro quando atravessou a rua?”  Até aparecerem veganos dizendo que estamos falando mal dos tomates.

Mas ao mesmo tempo, pode existir um desafio para a nova geração de humoristas (e para a velha também) para que consigam criar um humor onde o opressor seja a vítima da piada e onde soluções fáceis e aparentemente preconceituosas sejam evitadas. Essa discussão é válida e o futuro dirá se o humor se tornará mais criativo ou mais burro. Espero que o primeiro prevaleça.