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domingo, 9 de março de 2014

O HUMOR POLITICAMENTE (IN)CORRETO - Ensaio

Qual, afinal, o objetivo desta piada? Dizer que as mulheres são interesseiras ou mostrar o simples absurdo de um gato rico? Ou seria os dois?




“O humor compreende também o mau humor. O mau humor é que não compreende nada.”

Millor Fernandes


Acho que o problema da patrulha ideológica sobre piadas é que em geral ela é feita por pessoas radicais e muitas vezes de inteligência limitada (não é caso de muitas pessoas, óbvio). Um bom exemplo foi a censura brasileira na ditadura, que cometia os desatinos mais imbecis. Não vou dar exemplos, é fácil encontra-los por aí em sites sobre censura nos anos 60 e 70. Bem, o politicamente correto é mais ou menos a mesma coisa, só que ao invés de ser um bando de idiotas censurando sem ter conhecimento de causa e baseado em regras e preconceitos próprios, temos agora a sociedade inteira fazendo isso e espero que alguém concorde comigo que pelo menos grande parte da sociedade brasileira é formada por idiotas (do povo aos altos escalões governamentais). Se a censura contra piadas misóginas, pró-estupro e racistas fosse feita por uma comissão de humoristas profissionais respeitados de ambos os sexos, eu realmente levaria a sério o que eles tem a dizer sobre cada piada. A questão é que como cada um de nós tem uma agenda, um estado de humor diferente a cada dia, uma história de vida e culturas diferenciadas, percebemos piadas de modos diferentes e nem sempre o que soa ofensivo pra um soa pra outro. O que não quer dizer que um seja misógino e outro não. Tenho duas amigas que odeiam piadas politicamente incorretas (pelo menos já discutimos horrores sobre isso na época da polêmica do Rafinha Bastos) e uma riu da piada do gatinho acima, a outra, odiou e achou machista. Eu acho que o foco da piada é o fato de ser um gatinho (felino) com dinheiro. E não que mulher seja interesseira. Pelo menos foi pra mim.

Já topei com piadas idiotas e imbecis pró-estupro, misóginas, etc nas redes sociais e devo ter postado meu desagrado nos comentários. Mas tinha gente rindo delas. Sempre tem quem ria. Mas eu acho que, como sempre, a preocupação excessiva com a última ponta da cadeia da produção não é o que irá efetivamente mudar algo. A piada, por si só, é apenas algo que é dito ou mostrado e as pessoas riem (ou não). Nada acontece por causa de uma piada. Onde a merda acontece é nas casas das famílias onde pais e mães criam filhos e filhas para serem adolescentes e adultos machistas, sexistas, misóginos desde pequenos. Piadas sobre esse tipo de coisa eles só vão escutar a partir dos 12, 13 anos entre a galera, que são pessoas com mais ou menos a mesma mentalidade. E é o comportamento deles, muito mais que as piadas, que vão reforçar suas atitudes perante o sexo oposto. Não é uma piada que faz isso. As pessoas não contam piadas o tempo inteiro umas para as outras, mas falar mal de um gênero, desrespeitar com provocações e até mesmo tocando uma mulher sem permissão, são atitudes 10 vezes piores que contar uma piadinha entre amigos. E o fato de proibir a piada de ser contada, não vai mudar em nada a atitude e pensamento deles. Sejam eles racistas ou misóginos. Só vai impedir que tanto boas quanto más piadas sejam criadas sobre o assunto. Nada mais.


Milhares de pessoas indignaram-se nas redes sociais com o 2º e 6º item, que sugere um estupro.


Um exemplo do ponto que chega essa burrice do politicamente correto: um conhecido meu, branco, estava no escritório central do PT e tinha uma mulher do Movimento Consciência Negra lá. Não lembro se ele estava falando com ela ou se ela apenas estava por perto, mas em dado momento ele comentou:“minha mesa é um buraco negro, não acho nada aqui”, referindo-se a bagunça da mesa. A mulher então o interpelou dizendo que esse termo era pejorativo e que ele não podia falar aquilo. Bom, aí está um exemplo claro de uma pessoa de conhecimento limitado, que não sabe do que o outro está falando e que acha que tem o poder de mudar denominações criadas pela sociedade astronômica internacional somente porque contém a palavra “negro” nela.

Acho que as pessoas tem que ser livres pra contar qualquer tipo de piada, por mais racista ou sexista que seja, por que se eles não contam na nossa frente, eles contam escondidos entre eles e na nossa frente usarão máscaras hipócritas de civilidade. Eu acho ótimo que esses imbecis deem a cara a tapa na internet ou nas mesas de bares para que se saiba quem são eles para que possamos denunciá-los (quando for necessário) ou excluí-los de nosso círculo de amizades ou redes sociais.

O humor, a piada ou o chiste feito com ironia, sarcasmo e inteligência é uma das poucas coisas que realmente nos diferencia dos demais animais. Tanto que mesmo para entendermos piadas mais sofisticadas, temos que ter uma certa maturidade mental para entendê-las. Querer censurar e limitar a criatividade humana nesse sentido é perigoso, já que na Europa e Oriente Médio, pessoas que fazem piadas com Maomé ou Alá são ameaçadas de morte. Se continuar assim, todos poderão alegar que uma piada ofende determinado grupo, ideologia, religião, modo de vida e podemos acabar limitados a piadas do tipo “o que o tomate disse pro outro quando atravessou a rua?”  Até aparecerem veganos dizendo que estamos falando mal dos tomates.

Mas ao mesmo tempo, pode existir um desafio para a nova geração de humoristas (e para a velha também) para que consigam criar um humor onde o opressor seja a vítima da piada e onde soluções fáceis e aparentemente preconceituosas sejam evitadas. Essa discussão é válida e o futuro dirá se o humor se tornará mais criativo ou mais burro. Espero que o primeiro prevaleça.       


terça-feira, 14 de agosto de 2012

COMO DIFERENCIAR UMA COLUNA DE HUMOR DE UMA COLUNA SÉRIA - Humor



Preocupada com outras leitoras meio lentas, Auana Sonsin, de Bragança Paulista – SP, sugeriu:       

 COMO DIFERENCIAR UMA COLUNA DE HUMOR DE UMA COLUNA SÉRIA

                   
1. Quando você lê na coluna de humor que... “na excursão do colégio à fábrica de salsichas, Isabelle caiu numa máquina, virou salsicha e foi servida no cachorro-quente no final da excursão”, você...

A. Ri.  
B. Chora.  
C. Chora de rir. 
D. Fica indignada e chama a Vigilância Sanitária para fechar a fábrica.

2. Quando você lê na coluna séria que... “Camila usou a tesoura elétrica em seus cabelos e aprovou o resultado”, você...

A.  Acha legal.
B.  Fica com medo da tesoura elétrica te dar choque.
C.  Acharia engraçado se sua amiga levasse um choque da tesoura elétrica.
D.  Tenta convencer sua mãe a comprar, mas ela não quer, depois que você deu um curvex elétrico para ela e ela tomou um choque no olho.

3. Quando você lê na coluna de humor que... “por comer batata frita recolhida do chão, fulana desenvolveu câncer na garganta e teve que amputar a cabeça”, você...

A.  Ri.
B.  Chora.
C.  Chora de rir.
D.  Fica horrorizada e começa uma campanha para as pessoas não comerem mais comida que caiu no chão.

4. Quando você lê na coluna séria que... “por causa da guerra em seu país,  M’Bele já não vai a escola há mais de um ano”, você...

A.  Acha ela uma sortuda.
B.  Fica triste, pois você é nerd e adora estudar.
C.  Fica querendo que aconteça uma guerra no Brasil.
D.  Pede aos seu pais para fazer um intercâmbio para o país da M'Bele.

5. Quando você lê na coluna de humor que... “Jerri Dias é feio, burro, preconceituoso, rouba doce de criança, passa rasteira em cego, senta em bancos reservado a idosos e se acha o último biscoito do pacote”, você....

A.  Ri.
B.  Chora.
C.  Chora de rir.
D.  Fica indignada e confirma todas as suas suspeitas de que o colunista desta seção é um tremendo mau-caráter, criminoso, serial killer e deveria ser linchado em praça pública.

MAIS A, B e C.

Você entende que é uma coluna de humor e ri. Mas chora quando o texto não tem graça nenhuma e você perdeu seu tempo. E chora de rir porque lembrou do King Kong que sua amiga pagou ontem.

MAIS D.

Você não sabe diferenciar uma piada de um fato real e quando alguém conta uma piada perto de você, sempre dá briga e discussão. Procure um neurologista, um psiquiatra e um terapeuta.

                                            Jerri Dias não sabe se ri ou se chora de rir.


Coluna publicada na Capricho nº1054.


terça-feira, 4 de outubro de 2011

POR UM BRASIL MENOS INTOLERANTE - Crônica

Rafinha Bastos, o Cristo da semana. E ele também é judeu...


Amigos e leitores sabem muito bem que abomino uma polêmica ;-) , mas depois de ler matérias da mídia e muita gente no Facebook e Twitter demonizando o Rafinha Bastos do CQC, resolvi dar minha opinião de paquito sobre esse “escândalo” da sociedade brasileira...

Bom, em primeiro lugar, tem o lance da democracia e liberdade de expressão, mas não vou falar disso aqui, porque o André Forastieri disse tudo o que eu queria dizer no link abaixo:

ANDRÉ FORASTIERI


Então aqui vou me concentrar na figura/persona do Rafinha. Não conheço ele pessoalmente, não sei como ele é na vida real, mas sei que ele é humorista e 99% dos humoristas que eu conheço tem uma visão crítica das pessoas e da sociedade e o Rafinha sempre me pareceu ter isso com seu jeito de velho rabugento de reclamar das coisas.

Como a maioria de nós, conheci o Rafinha no CQC. E o que mais me chamou a atenção no programa, foi o fato dele ter toques do antigo OLHAR ELETRÔNICO, no que diz respeito a acuar políticos para debochar ou simplesmente perguntar aquilo que todo jornalista quer mas que nunca perguntam para manter uma fachada respeitável que na verdade só desrespeita o espectador em casa.

Além de invadir o Congresso, O CQC tinha o PROTESTE JÁ, onde o Rafinha visitava cidades para mostrar o desleixo de prefeituras e secretarias em realção às necessidades do povo. Geralmente Rafinha desmascarava a “burrocracia” e a incompetência dos políticos e funcionários públicos e em muitos casos, conseguia melhorias para a população local. Ou pelo menos alertava o povo do perigo de votar novamente em determinado político. Apesar de fazer isso em nome de um programa e recebendo um salário por isso, Rafinha foi um agente de mudanças positivas e reais na vida de muitas pessoas que não tinham voz ou importância suficiente para serem ouvidas pelas autoridades.

Da mesma forma, Rafinha é pago pra fazer piadas durante o resto do programa. E como humorista que é, ele muitas vezes improvisa sobre o texto que recebe da redação. Seu humor ácido, rabugento e grosseiro se tornou sua marca registrada, assim como o de Marco Luque, que faz o bobo alegre e Tass que fica no papel de mentor inteligente e bem humorado dos dois. Ou seja, cada um foi selecionado para sentar naquela mesa exatamente por seu tipo específico de humor.

Tem quem não goste disso ou daquilo e tudo bem, eu mesmo parei de ver CQC há mais de um ano porque não agüentei mais esperar meus quadros favoritos no meio de tanta perseguição à celebridades nulas e jogadores de futebol que não tem nada para dizer.

Agora, Rafinha fala uma piada grosseira qualquer e de repente crucificam ele, afastam do trabalho e o cara começa a receber milhões de xingamentos de todo o Brasil pelo Twitter, Facebook e outros sites. A grande maioria dos xingamentos não é real na verdade, pois a maioria é simplesmente histeria coletiva, um bando de “Maria-vai-com-as-outras” que quando vêem alguém ser chutado num linchamento, vão lá e chutam também, sem nem saber direito o que está acontecendo.



E eu me pergunto: que mal tão grande essa piadinha infame dele realmente fez? E ela automaticamente cancelou todas as coisas realmente legais que ele já fez?

Me parece que quem tem que sentir ofendido de verdade é só a Wanessa e o marido dela e sinceramente, eu duvido que qualquer um dos dois tenha perdido a fome, o sono, o apetite ou mesmo seu programa de TV preferido por causa disso. Isso está muito longe de ser perseguição da parte dele e até onde sei, o Rafinha não é racista, não é estuprador e nem pedófilo e tenho certeza que ele tem nojo desse tipo de gente como qualquer ser humano razoável tem. Quando Rafinha falou que “comia ela e o bebê” ele fez questão de deixar a piada nonsense o suficiente para todos perceberem a grande bobagem que ele estava dizendo, pois acho que nem o mais louco pedófilo pensaria em ter relações sexuais com um feto. Mas não adiantou. Apesar dele mesmo se autoridicularizar e xingar a si próprio constantemente para mostrar que é tudo uma piada, também não adiantou. Algumas pessoas acham que certas coisas não podem ser faladas nem como piada. Sinceramente, já li centenas de piadas contendo racismo, estupro, pedofilia, xenofobia, homofobia e todo tipo de atividade humana psicologicamente doentia e geralmente acho graça da maioria, pois são só piadas, qualquer pessoa racional percebe que não são manifestos ou elogios a favor dessas atitudes. E recebo esse tipo de piada a todo momento no meu e-mail, as vejo em sites, bem, você sabe do que eu estou falando, porque você também já deve ter lido e recebido muitas piadas do tipo.

E isso me lembra aquele bando de gente na Bíblia com pedra pra jogar na prostituta... Como se ninguém nunca tivesse feito uma piada com o intuito de fazer rir e de repente se deparou com uma pessoa ofendida. Já aconteceu e acontece o tempo todo comigo quando sou mal entendido nas minhas colunas de humor na revista CAPRICHO.

Em tempo, O papel do bobo da corte era sempre entreter e provocar a realeza e ele era o único que podia falar as coisas que ninguém mais podia. Pelo menos até a hora em que algum nobre acordasse de maus bofes, se ofendesse por uma besteira qualquer e mandasse cortar a cabeça do bobo, como agora estão fazendo com o Rafinha.

Esse assunto nunca viraria pauta de mídia se vívessemos numa sociedade verdadeiramente democrática e sã, no máximo seria discussão de boteco. Que tal a gente começar a dar a devida proporção aos fatos?

E agora chega, que como disse um amigo do Facebook “enquanto aqui no Brasil se discute se piada é piada” tem gente no mundo inteiro protestando e tomando porrada porque quer mudanças econômicas e sociais de verdade.

AQUI!