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domingo, 24 de janeiro de 2016

HULK - Comics

Capa de Al Milgrom.
Uma das raras vezes em que a arte interna é muito superior a da arte da capa.
Clique para ampliar. 


SASQUATCH!

Em The Incredible Hulk Annual nº8 (Marvel, 1979) e no Brasil, no Almanaque do Incrível Hulk nº 1 (RGE, 1980) foi publicada Sasquatch! uma das 10 melhores histórias do personagem que já tive o prazer de ler. A crítica a seguir contém mega-spoilers. Leia por sua conta e risco.

Na história escrita por Roger Stern e John Byrne, um astro em ascenção na Marvel, Hulk cai do espaço em uma remota floresta do Canadá.  Salvo por uma mulher, Maureen,  de morrer sufocado na cratera aberta por sua queda, Hulk acorda com seu mau-humor habitual e machuca sua salvadora. Apavorada, Maureen é poupada somente porque Hulk finalmente entende que ela na verdade o salvou.  E também porque Hulk é o herói da história e nos anos 70 não lhe permitido aos roteiristas matar inocentes, nem mesmo quando Hulk arrasava cidades inteiras.



Ferida, Hulk a leva de volta para sua cabana na floresta. Lá, a criatura se acalma e volta ser Bruce Banner. Depois de mais um choque causado pela aparição de Banner, a mulher sai para procurar seu gato e deixa Banner sozinho na cabana. Contemplando uma espingarda, Banner reflete seriamente sobre a possibilidade de cometer suicídio. O desespero e a falta de esperança causado pela incapacidade de conter a raiva de seu ID, pelo que me lembro, só seria abordado com mais profundidade novamente na mini Banner, de Azzarello e Corben da qual já falei aqui.

Enquanto isso, a queda do Hulk em solo canadense não passou desapercebida e os militares enviam Sasquatch, um agente da recém-criada (Claremont e Byrne) Tropa Alfa, para neutralizar o Hulk. Movido pelo ego e para não fugir do clichê heróis-brigam-quando-se-encontram, o cientista Walter Langkowski/Sasquatch aceita a missão para testar sua força contra o Hulk. Ego contra ID.

Banner:
"Mas existe um meio de curar isso, não? 
Uma forma rápida de deter o Hulk para sempre.
Porque não? Um tiro... Sem dor... Sem sentir nada. 
Agora, antes que eu..." 


Após uma entrada dramática e assustadora para Maureen e Banner, Sasquatch explica seus motivos enquanto Banner tenta dissuadi-lo de sua arrogância. Como não sobra mais uma vida real para o personagen de Banner, parece que só seu Superego sobrou, tentando a todo custo frear as paixões, a violência e a raiva que podem liberar seu ID incontrolável. Mas como o personagem trágico que é, Banner novamente se transforma em Hulk após quase ser morto por Sasquatch em sua tentativa de provocar a metamorfose.

Nesse ponto entram em ação as linhas dinâmicas do ilustrador tradicional do Hulk, Sal Buscema, mas dessa vez auxiliado pelo tinta sombria de Alfredo Alcala (arte-finalista habitual de John Buscema em diversas aventuras de Conan). Sal entrega uma sequência de ação brutal que entrou para os anais das melhores sequências de lutas do Hulk até hoje e Alcala garante um realismo às expressões de ódio do monstro como nunca havia se visto até aquela época.


A única ressalva que faço quanto a sequência de batalha é a velha mania 
que os roteiristas da Marvel tem de adicionar diálogos durante os golpes.



Com um impulso homicida e diálogos raivosos no estilo "Como a luta pode acabar se você ainda está vivo?", essa foi a primeira aventura que li do Hulk (das centenas das publicadas nos anos 60 e 70), onde seu instinto assassino é aprofundado. E a história é tão bem conduzida nessa questão que, pela primeira vez, acreditamos que o Hulk pode matar.

As últimas páginas resumem magistralmente os anos da tragédia que se tornou a existência de  Banner/Hulk, quando enlouquecido pela raiva, percebe o pânico mortal que Maureen sente dele. Súbito, a ficha cai e o Superego de Banner entra em cena forçando o Hulk a desistir da violência, forçando-o a entender a morte de uma conexão real com outro ser humano, forçando-o a desistir de ser amado.





Se esquecermos por um instante as milhares de histórias bobas passadas e presentes escritas com a personagem do Hulk e focarmos apenas no que foi contado nesse pequeno épico dramático em particular, perceberemos que estivemos diante de um daqueles raros momentos em que os quadrinhos de super-heróis extrapolam seus objetivos originais de mero entretenimento superficial e se tornaram literatura de qualidade.   


Capa da edição nacional que contém a história.
     

sexta-feira, 7 de março de 2014

JERRI DIAS de A – Z – A Autobiografia

1975, algum aniversário lá em casa, não sei de quem.
Na frente, da esquerda para a direita: Xande, meu irmão Jacques, minha irmã Jacqueline e eu (mostrando a capa do livro).
Atrás: Uma guria que não lembro, Carla, outra guria que não lembro e Ricardo Maia, o guri com cara de safado.


E de ENCICLOPÉDIA HUMANA

Alfabeto e um vocabulário mínimo decifrado, comecei a devorar todo gibi ou livro que me aparecia na frente, até o que não devia. Meu tio, que uma época foi morar lá em casa, trouxe com ele raras jóias literárias, como os quadrinhos pornôs de Carlos Zéfiro, que eram vendidos secretamente nas bancas de jornais em uma época em que revistas pornôs era proibidas pela Ditadura.

Meus pais não tinham controle algum sobre o que eu pegava pra ler e assim, além dos catequismos (como eram conhecidos) de Zéfiro, acabei lendo muitos livros para adultos antes de completar 13 anos e até enciclopédias eu lia, o que me valeu o apelido de intelectual na minha família quando eu era criança. Claro, depois dos 13, passei a ser chamado de louco pela minha família, mas isso é outra história.

Data dessa época o meu interesse por dinossauros e hoje tenho como certo que fui um T-Rex na minha reencarnação passada. Na época meus pais até comentaram em me colocar num concurso do Sílvio Santos para crianças metidas a sabichonas (hoje chamamos nerd) pra ganhar um dinheiro, mas não rolou. Ainda bem, pois nessa de virar criança-prodígio eu podia acabar que nem o Michael Jackson ou a Britney Spears! E hoje eu seria um pouco mais louco. 

Mas de tanto as pessoas ficarem elogiando a minha inteligência, eu acabei acreditando que era muito esperto mesmo e passei a chamar todo mundo de burro (já treinando para quando fosse ditador). Claro que tinha sempre uns burros que não gostavam que eu chamasse eles de burros e em sua burrice eles zurravam e me coiceavam. Tudo bem, eu sei que era pura inveja da minha sapiência suprema!

Continua em F de FÉRIAS FRUSTRADAS!

   

terça-feira, 21 de julho de 2009

MINHA AVÓ

Passeio no Bric da Redenção com minha avó. Ela adorou rever tantas coisas antigas...

Minha avó Maria nasceu em 1919 lá no interior de Santa Catarina e vai fazer 90 anos em dezembro. Minha avó tem a mesma idade da minha escritora preferida, Doris Lessing, que em 2007 ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Mas a minha avó nunca aprendeu a ler.

Mas naquela época a maioria da população brasileira era analfabeta e ela se acostumou com isso. E conseguiu sustentar seus dois filhos pequenos depois que o meu avô, que nunca conheci, morreu atropelado por um caminhão enquanto dirigia sua bicicleta.


Através dos relatos da minha mãe, sei que ela teve suas desavenças com minha avó, mas eu nunca conheci a mãe de minha mãe, apenas conheci a minha avó e posso dizer que nunca tive problema algum com ela. Na verdade, só alegrias. Claro que o fato de você nunca ter vivido o dia-à-dia com uma pessoa favorece que você esteja longe nos maus momentos dela e assim, evitam-se conflitos. É uma posição muito confortável a minha, mas não saberia dizer se esta é uma posição egoísta ou não, visto que hoje minha mãe, que mal consegue andar, tem que cuidar da minha avó e meu tio, filho da minha avó, mora com a esposa e uma filha em um apartamento de dois domritórios e o trabalho ocupa a maior parte do tempo dele.


Hoje estamos procurando um bom asilo para alojar minha avó, que sempre disse que queria ir para um, mas segundo me disseram, muda de idéias às vezes. Na minha frente ela sempre disse que queria ir. Como disse, minha mãe não tem condições de cuidar dela. Apesar de minha avó subir e descer escadas regularmente e caminhar sozinha pelos corredores dos blocos onde mora, ela não tem mais condições de cozinhar e arrumar a casa, coisas simples mas que demandam uma certa concentração e esforço dos quais minha avó não é mais capaz.


Mas o que eu queria mesmo dizer era que minha avó querida, apesar de analfabeta e ignorante a respeito de quase tudo do mundo moderno, me levou pra assistir 2001: UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO quando eu tinha 8 anos de idade. Um filme legendado que quase não tem diálogos, mas que mesmo hoje, a maioria dos adultos não entende. Minha avó, acredito, não deve ter entendido nada, mas ela sabia que eu gostava de naves espaciais e meu levou mesmo assim. Eu, claro, também não entendi nada na época, e logo esqueci todo o filme, mas a cena em que o computador HAL é desligado e a música “ALSO SPRACH ZARATHSUTRA” (Assim Falou Zarathustra) de Strauss ficaram gravados na minha memória inconsciente pra sempre e durante 10 anos eu escutei maravilhado essa música tocando em comerciais, rádio e até em outros filmes, sem saber de onde era. Até que eu revi o filme novamente e lembrei.


E hoje, mais de 30 anos depois, estou chegando a conclusão que provavelmente foi minha avó analfabeta e ignorante que me proporcionou a minha primeira experiência cinematográfica genuína, que acabou por detonar meu amor pelo cinema de Ficção-Científica(e ela ainda me levou pra ver GUERRA NAS ESTRELAS depois), pela música clássica e talvez por tabela até minha quase obsessão pelo conceito do super-homem do filósofo alemão Niesztche, que escreveu o livro ASSIM FALOU ZARATHUSTRA, ao qual a música presta homenagem. Até minha graphic novel vem daí.


Eu nunca falei isso pra ela.


Talvez ela nem se lembre daquela sessão, mas isso é certamente algo que ela vai ficar contente de saber.