Mostrando postagens com marcador cristianismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cristianismo. Mostrar todas as postagens

domingo, 3 de julho de 2016

O CRISTIANISMO É BOM PARA O MUNDO? - Comentário




Dinesh D'Souza é um indiano que se tornou escritor nos EUA. Conservador e apologista cristão, Souza defende o Colonialismo inglês na Índia. Neste debate com Michael Shermer sobre religião e ateísmo, ele dá várias declarações que achei que não foram suficiente respondidas por Shermer e decidir dar minha opinião de leigo. Assistam o vídeo e depois leiam minha resposta ao que ele diz:

1) A premissa política e territorial está correta: a desculpa pode ser o deus, a religião, a ideologia, a porcaria que seja, mas é tudo usado como desculpa para invadir, saquear e tirar a liberdade de alguém ou de um povo. O verdadeiro motivo é sempre a ganância ou a vingança.

2) As pessoas que fazem a guerra, massacram seu povo ou atacam o seu vizinho, seja motivada por um discurso religioso ou ideológico, não acreditam nos aspectos positivos ou amorosos de sua religião ou ideologia e buscam em ambas apenas motivos para julgar, condenar, roubar e matar. Nesse caso, a hipocrisia é a realidade em que vivem essas pessoas.


O "Deslocamento" dos ombros e braços era uma das torturas lights da inquisição contra "bruxas" e hereges.


3) A Igreja manteve muitos dados sobre julgamentos de bruxas no passado e por isso se pode ter boas estimativas. Ao mesmo tempo, linchamentos eram bastante comuns na época e como se sabe, nem sempre o povo tem paciência para aguardar o veredito da lei ou a chegada de um inquisidor. Por isso mesmo não se pode ter uma ideia real do número de mortes que a histeria causada durante 350 anos pela crença em bruxas pode ter causado, especialmente em vilarejos do interior. Para acusar uma pessoa de bruxa, bastava o testemunho de qualquer um contra qualquer pessoa. Ninguém estava livre de acusações e quanto mais antissocial a pessoa você, mais suspeitas poderiam recair sobre ela.

 4) Apesar de Souza tentar livrar a cara do Cristianismo, vale lembrar que ele é uma ideologia, mas por ser uma ideologia que se diz divina, seus seguidores buscam colocá-la além da crítica e julgamentos e nesse caso, se alguém dizia que está matando em nome de deus, isso se justificava por si só e evitava a revolta da maioria (dependendo da época e cultura). Durante todos os séculos de imposição da ideologia cristã ao mundo, judeus, mulheres, negros, índios, homossexuais, indianos e árabes eram considerados cidadãos de segunda classe, pessoas sem alma e assassinos de Cristo. Por esse motivo, todas essas pessoas sofreram preconceito, aprisionamento, escravidão, massacres e guerra contra elas nos últimos. Não esqueçamos que os espanhóis, o maior império católico, dizimou milhões de índios na América Central e Sul usando a religião como justificativa (para não dizer que era só pela terra e ouro).

5) É claro que ateus podem e são tão canalhas quanto qualquer Malafaia da vida, mas eu não tenho conhecimento suficiente pra dizer que tantos milhões de pessoas foram mortas em regimes comunistas porque os governantes queriam impor o ateísmo. Elas eram perseguidas, presas e mortas por não compactuarem com o regime ou por serem consideradas perigosas, pois a paranoia é um sintoma de regimes autoritários, religiosos ou não, e inimigos precisam ser criados para manter o status quo. Vamos lembrar que a perseguição e extermínio de Hitler aos judeus foi o ápice de uma propaganda nefasta contra judeus organizada e perpetrada pela Igreja Católica durante quase 2.000 anos. Não fosse o ódio e preconceito milenar contra judeus, os argumentos dos nazistas contra eles talvez não tivessem sido tão bem aceitos.

6) Souza disse que hoje não acontecem mais massacres de bruxas e que é bobagem acreditar que isso poderia acontecer, mas cada época e cultura tem o seu objeto religioso de ódio e hoje, para muitos religiosos, esse objeto são os homossexuais e em junho de 2016 tivemos um massacre de mais de 50 pessoas em uma danceteria gay por um homofóbico criado em uma cultura religiosa que odeia homossexuais. Não é cristã, mas a motivação superficial é religiosa, portanto desculpável para muitos islâmicos. E vale lembrar que muitos cristãos nos EUA aplaudiram o massacre da boate. Então, sim, o assassinato de "bruxas" continua sendo incentivado e apoiado em sociedades cristãs.


Pastor cristão celebra culto celebrando a morte de homossexuais no massacre de Orlando.


7) Bin Laden, se estivesse vivo, imaginaria sim, um mundo dominado pelo Islã e bilhões de infiéis submetidos ou mortos por terem valores ocidentais e seculares. Hoje, o ISIS imagina isso por ele.

8) Os valores da sociedade ocidental vem da cultura grega, do judaísmo, do cristianismo e nas últimas décadas, graças ao acesso a outras culturas, vem da toda parte. Não acho que seja uma questão de gratidão a qualquer uma delas, pois isso é simplesmente um fato da realidade e não vivenciamos outro. Todos os valores podem ser distorcidos de forma política ou religiosa para criar uma sociedade injusta e desigual e a realidade nos mostra que eles estão e continuam sendo distorcidos pela maioria de acordo com seus próprios interesses individuais. Faz parte da natureza humana. Alguns lutam contra esse lado brutal, mas a maioria de nós não consegue.

Debate completo, sem legendas.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

JESUS E JAVÉ – OS NOMES DIVINOS

Michelangelo – detalhe de “A Criação dos Céus” (1508 -12)


O Autor

Teórico e ensaísta literário, Harold Bloom é um dos maiores intelectuais e críticos literários em atividade. Autor de mais de 27 livros sobre literatura, Bloom leciona Humanidades na Yale University e Inglês na New York University.



O Livro

Neste extraordinário ensaio literário sobre a Tanak (Velho Testamento Judeu) e o Novo Testamento cristão, Bloom se debruça sobre as figuras literárias e históricas de Jesus e Javé (pronuncia-se Iavé), dois símbolos religiosos que pouco tem em comum, de acordo com o autor.

Ao longo do livro, Bloom traça a biografia de Javé, o deus temperamental, inseguro, carente e violento que forja uma aliança com a tribo judaica e exige deles amor incondicional em troca de proteção e bênçãos. Nas palavras do próprio dirigindo-se a Abraão: “E abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem (...)”. Fica clara a diferença de Javé com o deus proclamado pelo cristianismo, onde supostamente, todos somos amados por Deus, e não apenas a tribo de Abraão.

O pedido de Javé para que Abraão sacrificasse seu filho para provar seu amor por ele, se aplicado à realidade, demonstraria claramente uma relação abusiva com um psicopata manipulador.


O claro desaparecimento de Javé no Novo Testamento também não deixa de ser um proposital erro de continuidade, visto que no Velho Testamento, Javé é um deus ativo, que visita profetas em suas casas, fala com outros tantos e desempenha os mais diversos tipos de milagres, muitos dos quais, envolvendo massacres de centenas de pessoas, sempre favorecendo a tribo de Judá.

Já no Novo Testamento, Javé é um deus ausente e nem com Jesus ele conversa e nenhum milagre realiza de sua parte. A Antiga Aliança, feita com Abraão, já não mais existe. De acordo com a Igreja Católica, o que agora existe é uma Nova Aliança, aquela que supostamente abrangeria toda a humanidade.

Interessante notar que a partir desta Nova Aliança declarada pelos recém-nascidos cristãos, deus nunca mais se manifestou como se manifestava o Javé dos judeus no Velho Testamento.

Apesar da suposta nova aliança com a humanidade, Javé, que no Velho Testamento interferia diretamente nos rumos da sociedade e nas vidas das pessoas, desapareceu para nunca mais ser visto.


Bloom arrisca dizer, em um certo trecho, que Javé auto-exilou-se no espaço sideral, abandonando a raça humana a própria sorte, o que seria uma explicação razoável, caso ele realmente existisse.

Uma outra comparação muito interessante que Bloom faz entre o Judaísmo e o Catolicismo é o fato de que no Judaísmo, existe apenas Javé e que no Catolicismo existem Deus, o Espírito Santo e Jesus Cristo (fórmula criada pelo Concílio de Nicéia em 325 D.C. para tentar explicar que as três entidades eram uma só. Explicação até hoje contestada por muita gente). Mas além da Santíssima Trindade os católicos podem orar e pedir milagres diretameten para a Virgem Maria e toda uma infinidade de santos especializados nas mais diversas causas. Mais ou menos como funcionava nas antigas religiões pagãs (gregas, egípcias) e como funciona na religião hindu. Percebendo isso, constata-se facilmente que o Judaísmo é uma religião monoteísta (que acredita em apenas uma divindade) e que o Cristianismo se transformou numa religião politeísta (crença em várias divindades). Isso em nada implica no fato de uma dessas religiões ser melhor ou pior do que a outra, assim como a hinduísmo também não é. É apenas um fato curioso sobre o qual pouca gente pensa e claro, que a Igreja Católica jamais vai admitir.

Mas ao mesmo tempo em que revela as incongruências e absurdos de ambos os livros sagrados, Bloom, judeu não-praticante, considera que Javé é por demais importante para ser ironizado, respeitando a importância histórica de tudo o que foi feito de bom e de ruim em nome dele.


No Brasil, o avanço das religiões neopentecostais na política utilizando táticas e discursos medievais em seus templos está causando retrocessos na cultura e na sociedade.


Não temos como saber se a humanidade estaria melhor ou pior se alguém ou um grupo de pessoas não tivesse criado Javé e Cristo para controlar e apaziguar as massas, mas nos últimos séculos, com o advento da ciência e da liberdade religiosa e de expressão, pode-se dizer que existe uma certa confusão da sociedade em relação ao que ou em quem acreditar e com isso, numa tentativa embrutecida de recusar pensar e discutir sobre o assunto de modo mais profundo, muitos grupos decidiram por tentar retornar a um fundamentalismo arcaico, onde negam a Ciência e até mesmo, as liberdades pelas quais tantos sacrificaram suas vidas para que hoje em dia pudéssemos falar numa mesa de bar que não acreditamos em Deus ou que não gostamos do Lula, sem corrermos o risco de irmos para a fogueira ou para a prisão.

Trecho

“Na condição de crítico, aprendi a confiar na advertência que introduz o primeiro volume dos Ensaios de Emerson – não existe história, apenas biografia – bem como na percepção emersoniana de que nossas preces são enfermidades da vontade, e nossas crenças, enfermidades do intelecto. O Novo Testamento é mito e fé; não se trata de relato factual, e os escritos de Josefo, desde logo indignos de confiança, ainda foram falsificados por autores cristãos. Jesus carece tanto de história quando de biografia, e não temos como saber quais dos seus ditos são autênticos. Para quem aceita a Encarnação, nada disso importa. Afinal, o judaísmo é igualmente incerto: terá o Êxodo, de fato ocorrido? Os milagres de Cristo, à semelhança dos de Javé, só convencem os convertidos.”

Quer comprar?




Boa leitura.

-----


Curtiu? Ajude a manter o blog compartilhando as postagens que você gostou :-)