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quinta-feira, 9 de maio de 2013

AS AVENTURAS DE PI (Life of Pi, EUA/Taiwan, 2012) - Crítica


Sinopse

Pi, único sobrevivente humano de um naufrágio, tem que dividir suas chances de sobrevivência com um tigre faminto a bordo de um bote.

O diretor

Ang Lee é um diretor de origem taiwanesa graduado em cinema nos EUA. Retornou para sua terra natal onde realizou longas mundialmente premiados, como BANQUETE DE CASAMENTO (1993) e em poucos anos voltava aos EUA pela porta da frente realizando o sucesso de público e crítica RAZÃO E SENSIBILIDADE (1995).  Versátil, Lee parece se interessar por todo tipo de temática, mas nunca deixando de aprofundar as questões psicológicas de seus personagens. O fabuloso O TIGRE E O DRAGÃO (2000) e o subestimado HULK (2003) são provas disso. É o único diretor não-caucasiano a receber um Oscar. Na verdade, dois: por O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN (2005) e por AS AVENTURAS DE PI.  



O filme

Ganhador de 4 Oscar, esta fabulosa fantasia de Ang Lee baseada na obra homônima de Yann Martel, que por sua vez “inspirou-se” no livro MAX E OS FELINOS de Moacyr Scliar (o próprio escritor fala sobre o caso aqui) fala de perda, sobrevivência e busca, um tanto forçadamente, um sentido religioso para a vida.



Apesar de possuir o nome que representa uma constante matemática, o personagem de PI não parece buscar a lógica da ciência, mas sim a inconstância de várias religiões. Por viver em uma família indiana religiosamente liberal (coisa rara) ele pode se dar ao luxo de acreditar e abraçar várias delas na tentativa de construir uma mitologia pessoal livre de dogmas restritivos demais e que faça algum sentido em sua vida. Luxo típico da modernidade laica ocidental.

A porca torce o rabo quando o protagonista, já adulto, afirma ao escritor interessado em contar sua aventura em alto-mar, que ele irá provar a existência de Deus ao final de sua narrativa. Uma afirmação um tanto temerária para os céticos de plantão, como eu. Mas enfim, Ang Lee sabe o que faz e o mínimo que se pode esperar deste filme são uma direção sensível, belos enquadramentos, uma trilha sonora inspirada e sofisticados efeitos especiais a serviço da narrativa (os 4 Oscar).



E durante boa parte do filme somos carregados pelo vasto oceano de realidade e fantasia do narrador e a relação homem/fera em condições tão severas acaba por se tornar tão verossímel quanto possível. Mas eis que todo o exagero narrativo e até mesmo o visual kitsch em determinados trechos da jornada (como a cena da baleia) afunda quando PI, recém chegado de sua odisséia marítima e em um leito de hospital, revela uma história completamente diferente aos agentes do seguro do barco naufragado. Nela não há tigre, não há uma ilha mágica repleta de suricatos ou a revelação do sentido da vida: apenas a crua e terrível verdade.  

E então o filme conclui um tanto desastrosamente na sua intenção de provar a existência de Deus. PI pergunta ao escritor em qual história o escritor preferia acreditar: A do tigre, com toda a sua beleza e mistério; ou aquela onde uma tragédia tão terrível acontecera que o próprio Pi tentara negá-la a si mesmo?

O escritor responde que prefere a primeira. E Pi responde: “Assim é com Deus.”

Bem, se essa era a prova prometida lá no início do filme, me parece que o roteirista e o diretor querem nos fazer crer que é melhor acreditar em uma ilusão que pareça dar sentido as coisas do que encarar a realidade e a verdade da vida como ela realmente é e amadurecer a partir de nossas alegrias e sofrimentos reais.




Um discurso mais maduro e realista a respeito do sentido da vida é dado em INDOMÁVEL SONHADORA. E por uma menina de 7 anos.

Mas acredito que esse detalhe não vai incomodar ao público acostumado a escutar horríveis clichês de filmes americanos e na verdade, a maioria dele sairá do filme emocionado e com a certeza de ter assistido uma bela fábula de fé e sobrevivência . 

Trailer



domingo, 3 de janeiro de 2010

HULK (Hulk, EUA, 2003) – Crítica Retrô

Cartaz do filme.
Clique nas fotos para ampliá-las.

Sinopse

Bruce Banner, cientista dedicado a desenvolver uma cura para qualquer tipo de ferimento ou doença, recebe uma dose fatal de radiação gama e a partir de então, quando irritado, transforma-se em uma monstruosa criatura verde de força descomunal.

Ang Lee discute uma cena com os atores. Ao fundo, Sam Elliott (General Ross).

O Diretor


Responsável por filmes leves com comentários sociais como BANQUETE DE CASAMENTO e RAZÃO E SENSIBILIDADE, dramáticos como TEMPESTADE DE GELO e poéticos como O TIGRE E O DRAGÃO, Ang Lee, diretor nascido em Taiwan em 1954, tem feito uma excelente carreira desde sua estréia com longas em 1992, mantendo um invejável posto como um dos mais versáteis diretores asiáticos da atualidade.

Hulk, em versão do ilustrador Tim Sale.

O Filme

Para quem ainda não sabe, Hulk é um super-herói criado em 1962 por Stan Lee e Jack Kirby para a Marvel Comics Group, hoje Marvel Entertainment. Nitidamente baseado nos personagens DR. Jeckyl e Mr. Hyde de O MÉDICO E O MONSTRO, de Robert Louis Stevenson, Lee e Kirby adaptaram os personagens do romance para o mundo moderno e para o universo super-heróico. O personagem faz sucesso até hoje, representando nosso lado incontrolável, ou ID, para quem curte Freud.

Os atores da série de TV. Bill Bixby (David Banner), já falecido, não pôde fazer uma participação especial nos dois filmes do cinema, como fez Lou Ferrigno (Hulk). Em ambos ele faz o papel de segurança de universidades diferentes.

Entre 1977-82, Hulk ganhou uma série live-action própria que popularizou o personagem como nunca. Embora tenha alterado o nome de Bruce Banner para David Banner (para não ser confundido com Bruce Wayne/Batman), reinventado sua origem e exibido um Hulk muito mais fraco em comparação com o original dos quadrinhos, a série foi um tremendo sucesso ao mostrar um homem atormentado fugindo de seu passado e ajudando pessoas pelas cidades onde passava, seja como ele mesmo ou como Hulk. A série ainda teve mais três longas especiais para a TV nos anos 90.

O CGI (Computer Graphic Image) deste HULK funciona melhor do que o do filme mais recente.

O HULK de Ang Lee custou 137 milhões de dólares e rendeu 245 milhões no mundo inteiro. Isso parece motivo para comemorar, mas segundo a lógica dos estúdios americanos, um suposto arrasa-quarteirão como HULK deveria ter feito esse valor apenas dentro do mercado doméstico (EUA e Canadá) e nele, HULK nem chegou a se pagar, atingindo apenas 132 milhões. Isso explica porque o filme não teve uma continuação e porque foi todo reformulado como O INCRÍVEL HULK em 2008. Na época, frustrado pela crítica dividida, a incompreensão do público e a pressão do estúdio, Ang Lee chegou a pensar em se aposentar, pois até então, toda sua obra só acumulara elogios e prêmios da crítica. Parece uma reação exagerada, mas na tradição oriental, a vergonha de fracassar em algo é sempre uma desonra muito grande. O próprio mestre Akira Kurosawa tentou se matar quando passou por uma má fase artística no final dos anos 60 e início dos 70. Mas até que seria bom se alguns cineastas americanos, como Michael Bay e Rolland Emmerich, adotassem essa prática salutar de se suicidar após fazerem dois ou três filmes ruins seguidos....

Nick Nolte (David Banner) faz o pai dominador, um cientista psicopata que anda com cães-monstros. Seu personagem e visual foram praticmamente copiados do filme mexicano AMORES BRUTOS, onde um assassino-mendigo andava com uma matilha de cães.

Eu confesso que quando vi HULK pela primeira vez, no cinema, achei o filme estranho, achei a edição exagerada em toda sua estilização para fazer o filme parecer uma história em quadrinhos e pior, achei que tinha pouco HULK e pouca luta e destruição.

E o “problema” do HULK de Ang Lee foi esse, ele não fez o que os fãs dos gibis queriam (muita porrada e luta de monstros) e nem o que os fãs da série queriam (um Hulk mais pé no chão e realista).


Ang Lee, como o autor que é, decidiu fazer o HULK que ele viu no quadrinhos: um homem traumatizado com seu passado e cuja vida sempre pareceu ter sido sempre controlada pelos outros, principalmente por figuras paternas, como seu próprio pai, David Banner, e pelo pai de sua namorada, o General Ross.


E sufocado por ambos, Bruce Banner acaba fazendo em sua vida, o que muitos de nós queremos de vez em quando: quebrar com tudo e todos sem ter medo das conseqüências.


Claro, fica muito mais fácil arrasar com tudo se você se transforma em um monstro verde de 3 metros de altura virtualmente invulnerável e com a força de mil homens.


E por incrível que pareça, apesar do HULK de Ang Lee ser mais humano que o da série de TV e lutar contra 2 tipos de monstros no filme e mais o exército, o público talvez tenha ficado confuso com a importância dada ao drama de Banner, mais do que ao monstro. E pensar um pouco ou sentir empatia real pelos personagens principais não é uma característica da maioria das pessoas que vão ao cinema para ver filmes de verão.


Um exemplo do efeito da tela-dividida usada para emular o efeito de uma história em quadrinhos.

Outro aspecto que torna este HULK tão interessante é a edição estilizada que busca emular o aspecto de uma história em quadrinhos ao extremo. Isso, obviamente, já foi feito em menor grau em outros filmes e séries de TV, incluindo a famosa série cômica do BATMAN nos anos 60. Mas graças às modernas técnicas de edição, Lee consegue momentos plasticamente belos na fusão de uma cena para outra. Claro que, até pela quantidade de efeitos de fusão e tela-dividida, nem sempre se acerta e às vezes até pode ficar um pouco confuso, mas esse é sempre um preço que se paga por querer apostar em uma linguagem à qual os espectadores não estão acostumados.
Mas foi assim que toda a linguagem do cinema foi criada, apostando-se nelas.


O HULK de Leterrier é mais ação vídeo-game e menos psicologia. É o que o povo quer, é o que o povo gosta...

E claro, não poderia deixar de citar O INCRÍVEL HULK (2008), de Louis Leterrier, diretor francês de filmes de ação, que pegou o personagem e o transformou em algo mais próximo do monstro dos quadrinhos e do cientista da série de TV. Ganharam os fãs, mas perdeu o cinema, que só ganhou mais um filme de super-herói cheio de efeitos bacanas e nada mais.

Sem Eric Bana caprichando em seu Bruce Banner fragilizado e atormentado, o filme não seria tão bom. Deixou Edward Norton comendo poeira nessa...

O HULK de Ang Lee, ao contrário, é uma daquelas pequenas jóias cinematográficas que vai servir como objeto de monografias, teses de estudantes de cinema e ser lembrado como um dos poucos filmes de super-heróis onde eles foram levados à sério e não meramente pensados para vender mais pipoca na entrada do cinema.

Trailer




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