
Baseado em contos do escritor gaúcho Paulo Scott, esse é o primeiro longa-metragem de Gustavo Spolidoro, que junto com Gibran Dipp, assina o roteiro.
O filme é um esforçado plano seqüência que atravessa pedaços da vida de personagens tristes, patéticos, loucos, abandonados, drogados e sobretudo apaixonados. A se guiar pelo título, o filme busca mostrar o comportamento ainda simiesco da fauna urbana. Não é difícil se ver retratado no filme, ou no mínimo, reconhecer amigos e amigas em suas fases loucas e boêmias.
Karina Kazuê e Lindon Shimizu
Se você curte isso tudo, provavelmente vai gostar de AINDA ORANGOTANGOS, já, se você é meio careta como eu, talvez não goste tanto. Como já disse, o plano-seqüência é o grande trunfo do filme, e também seu calcanhar de Aquiles. Ao primar pela linguagem, o diretor sacrifica o roteiro, que poderia ter sido melhor dilapidado na redução de algumas cenas (como a do casal que toma um porre de perfume) e também não dá chance aos vários atores de renderem o que poderiam através do benefício da edição. Como o filme foi escolhido pelo take único que melhor se adequava a linguagem proposta por Spolidoro, o que se vê são atores que calharam de estar bem naquele determinado take contra outros que não estavam tão bem e outros que simplesmente estavam ruins. Isso fica muito evidente na interpretação do garoto Kayode da Silva, cuja interpretação só poderia ter sido salva na sala de edição. Com atores irregulares, o jogo de cena fica comprometido e muitos diálogos soam artificiais, comprometendo o filme no geral. E a evidente simpatia que o diretor parece ter por seus personagens e suas situações acaba por aliviar a crítica ou deboche que poderia ter sido retratar tão rica fauna.
Renata de Lélis e Nilsson Asp
E tem a pergunta que não quer calar: porque rodar esse filme específico em plano-seqüência? O roteiro não parecia exigir nada disso. A resposta parece simples pra quem conhece a trajetória de Spolidoro: o diretor é conhecido e reconhecido por dois curtas-metragens. A saber, VELINHAS e OUTROS, ambos rodados em plano-seqüência. Morta a charada, nota-se um grande interesse do diretor em estética e linguagem, o que o levou a usar isso também em sue primeiro longa-metragem. Em termos de maketing, deu certo. AINDA ORANGOTANGOS é o primeiro longa em plano-seqüência feito no Brasil e um dos poucos realizados no mundo. Isso apenas, independente do filme ser bom ou ruim, já garante lugar em muitos festivais nacionais e ao redor do mundo, sem falar no interesse da mídia, que em sua grande maioria, parece estar gostando bastante do filme. E para o cinema brasileiro, propaganda nunca é demais.
Kayode da Silva (menino) e Marcelo de Paula
Mas confesso que eu esperava mais maturidade do diretor em relação ao roteiro e aos personagens, que muito pouco evoluiram em relação aos curtas citados. Espero que Spolidoro busque um maior equilíbrio entre roteiro, linguagem e atores em seu próximo longa.
Mas para não dizer que não gostei de nada, a última seqüência é uma divertida e anárquica invasão de um baile evangélico por um rapaz apaixonado pela debutante. A seqüência tem poucos diálogos e o pouco que é dito me pareceu mais humano, verdadeiro e patético. Como numa boa peça de Nelson Rodrigues.
Trailer do filme
E pra quem curte rock nacional, o site disponibiliza todas as canções da trilha sonora no link:
E meu amigo e compositor Yanto Laitano, que compôs ótimas trilhas sonoras para meus curtas, também comparece com a canção “Meu Amor”, que é bem bacana e engraçadinha e que logo, logo vai ter um vídeo clip. Pra conhecer mais músicas e vídeos do Yanto, clique no link: