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quinta-feira, 15 de julho de 2010

ROMA – Série de TV

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Depois dos filmes SPARTACUS (1960) de Stanley Kubrick e GLADIADOR (2000) de Ridley Scott, eis que surge uma série excepcional mostrando toda a glória e o esplendor da Roma dos Césares. E também toda sua sordidez e podridão.




Abertura da série. Excelente composição de Jeff Beal.

Como os dois filmes supracitados, ROMA também é livremente baseado em fatos históricos. Ou seja, vários personagens são reais ou baseados em pessoas que existiram, mas quase tudo foi alterado para dar uma maior dramaticidade à série e as suas personagens. Então, não leve ROMA a sério historicamente falando. Talvez a única coisa que se possa levar a sério são os hábitos e costumes romanos mostrados ao longo da série, que chegam a ser quase tão fascinantes quanto a narrativa em si.


A História é feita de sangue...

Durante as duas temporadas (22 episódios – 52 min cada), acompanhamos a vida de imperadores, rainhas, nobres, legionários, assassinos e escravos. Dezesseis atores e atrizes interpretam os papéis principais desse épico televisivo da excelente HBO, que foi um dos melhores e mais caros já produzidos. Cada episódio custava por volta de 10 milhões de dólares. O equivalente ao filme LULA, O FILHO DO BRASIL, o filme mais caro já feito por aqui. Infelizmente, a excelência da produção foi o calcanhar de Aquiles da série, e o alto custo foi principal motivo pelo qual ela foi cancelada, segundo executivos da HBO.


Cenários imensos foram construídos nos estúdios da Cinecittá, na própria Roma.

A série ganhou admiradores e fãs no mundo inteiro, por reviver, além da realeza e suas intrigas, os habitantes comuns de Roma, que vão desde jovens prostitutos até legionários veteranos de guerra e seu drama diário na luta pela sobrevivência em uma sociedade que lutava para ser civilizada, mas que frequentemente perdia essa luta. Qualquer semelhança com a nossa realidade, não é mera coincidência.


Polly Walker interpreta Atia de Julii.
Se você precisa de um vilão na série, é ela.

O maior diferencial da série, fora evidenciar cidadãos comuns, é que ao contrário de quase tudo o que foi feito sobre Roma em termos de cinema e TV até hoje, é que as mulheres; na visão do roteirista Bruno Heller e dos criadores da série (John Milius, diretor de CONAN, O BÁRBARO, entre eles); é que foram as principais articuladoras ou responsáveis (mesmo que por outros motivos) pelos principais fatos históricos (ou não), que ocorrem no seriado. Incluindo aí, o próprio assassinato de César e a ascensão do imperador Augusto. A paixão, crueldade, frieza e inteligência das personagens femininas são o coração de ROMA.


A bela atriz indiana Indira Varma é Niobe, esposa de Lucius Vorenus.
Uma mulher comum, mas que guarda um terrível segredo de seu marido.

Um dos outros grandes trunfos da série e do roteirista Bruno Heller foi trazer à série os dois únicos legionários citados em um livro escrito pelo próprio Júlio César: A Guerra da Gália (ou Comentários da Guerra Gaulesa). Geralmente, em antigos documentos históricos como esse, apenas personalidades extremamente conhecidas são citadas (nobres, reis, rainhas), mas Júlio César dedica algumas linhas para contar a história de dois centuriões chamados Titus Pullo e Lucius Vorenus, que de rivais, passam a ser amigos. E só.


Ciarán Hinds é Júlio César, político até a medula e James Purefoy é Marco Antônio, um homem comum que vê na política, mais do que qualquer outra coisa, os meios para satisfazer sua luxúria.

Já na série, Titus Pullo (Ray Stevenson, recentemente visto O Livro de Eli) e Lucius Vorenus (Kevin McKidd, recentemente visto em Percy Jackson) são o elo de ligação entre todos os outros personagens e durante toda a série, eles estarão envolvidos em todos os grandes fatos históricos do período: Da Guerra da Gália à derrota de Cleópatra no Egito.


Lucius Vorenus (Kevin McKidd).
O mais nobre e honrado dos personagens de ROMA.
E um dos mais interessantes.

Titus Pullo e Lucius Vorenus são concebidos, como muitas duplas de personagens, como água e vinho: sendo Pullo um hedonista (que vive para os prazeres imediatos da vida) e Vorenus um estóico (que acredita na honra e no dever). Cada qual, ao longo da série, pagará um preço por ser do jeito que é, enquanto tentam aprender, mesmo que sem admitir, um com o outro. Se as mulheres são o coração da série, Pullo e Vorenus são a alma. Heróis e homens strictu senso, a jornada de Pullo e Vorenus é umas das mais emocionantes, trágicas e comoventes que já tive o prazer de assistir.


Titus Pullo (Ray Stevenson)
Violento, bêbado, mulherengo.
Não tem como não gostar dele.

Eu poderia escrever parágrafos e mais parágrafos sobre vários outros personagens igualmente densos e surpreendentes, além das excelentes cenas de ação extremamente violentas, as cenas eróticas, a direção de arte genial e os figurinos, mas vou deixar a série falar sobre si mesma.


Max Pirkis é Gaius Otávio, futuro imperador Augusto.
Criado friamente pela mãe Atia de Julii para ser um líder.
Vai dar certo, mas...

E ao fim dos créditos do último episódio, emocionado com tudo o que havia acabado de assistir, me dei conta que a série, principalmente com toda sua intriga, corrupção, falsidade e personagens sedentos de poder, fortuna e dispostos a arruinar e destruir vidas sem piedade, com alguma atualização, poderia se chamar... BRASÍLIA.

Em tempo: a série foi cancelada, mas o roteirista da série, Bruno Heller, tem um roteiro de longa-metragem pronto desde março desse ano e a pré-produção já está sendo realizada pela produtora Morning Light Productions. Ave, Bruno!


Trailer da série.

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Ainda não dá pra formar uma legião romana, mas a gente chega lá ;-)

sexta-feira, 19 de março de 2010

À SETE PALMOS – Série


Se você gostou do filme BELEZA AMERICANA (American Beauty, EUA, 1999), vencedor do Oscar de Melhor filme, que detonava e debochava da classe média e do american-way-of-life em geral, vai adorar À SETE PALMOS (Six Feet Under, EUA, 2001 – 2005).

Criada por Alan Ball, roteirista de BELEZA AMERICANA, Á SETE PALMOS acompanha 5 anos da família Fisher.

O elenco principal da série.

Proprietários de uma casa funerária, os Fisher habitam o segundo andar de sua casa, enquanto no térreo, funerais são realizados todos os dias e no porão, corpos são reparados, abertos, costurados, embalsamados e maquiados.

E na casa, não poderia viver gente mais normal:

A familia mais (a)normal de todas.

O pai, Nathaniel Fisher (Richard Jenkins), que vivia uma vida aparentemente insípida e que morre nos primeiros minutos da abertura e passa a série toda como um “fantasma”, conversando com a mulher e os filhos.

A mãe, Ruth (Francês Conroy), toda certinha, mas completamente neurótica e que mantinha um amante na ocasião da morte do marido.

O filho mais velho, Nate (Peter Krasuse), o mais rebelde e empático da família, que foi embora por não agüentar o clima opressivo e deprimente da casa e voltou somente por causa da morte do pai.

O filho do meio, David (Michael C. Hall, o famoso Dexter), gay não assumido que tem um namorado policial e é assíduo frequentador da igreja local.

A relação homossexual de David com seu namorado é uma das mais honestas e realistas já mostradas.

A adolescente Claire (Lauren Ambrose), que herdou a rebeldia sem causa de Nate, mas é totalmente perdida em seus casos amorosos e sexuais equivocados e tenta se encontrar numa família fechada em seu próprios dramas.

A bela Claire, frustrada com sua vida, se joga em uma série de relacionamentos frustrados regados a alcóol e drogas.

Bom, aparentemente todos os ingrediente para uma boa série dramática estão aí. Quase uma novela, mas com personagens ricos de conteúdo e com roteiros melhores ainda. E a série já seria boa se fosse simplesmente isso, mas Ball quis fazer da série, além de um retrato de uma família americana atípica, mas igual a todas as outras, um tratado sobre a morte, a vida, o amor e o sexo. E os roteiristas levam a série aos maiores limites filosóficos, existencialistas, desesperadores e tristes que qualquer série já vista na história da TV. A crítica americana aclamou a série como uma das melhores já feitas. Se considerar que todo ano umas 50 novas séries surgem, é um feito para lá de considerável.

Mas não pense que a série é só dor e sofrimento. Embora esses sentimentos estejam em todos os episódios, o humor negro e o deboche são as armas tanto dos roteiristas quanto dos personagens para aliviar a barra, tanto do nosso lado, quanto da vida deles. Geniais são os prólogos de cada episódio, que demonstram a verdade do dito popular “para morrer, basta estar vivo”. Mortes horríveis, patéticas, tristes, engraçadas, brutais e bobas dão o tom de cada episódio, pois os mortos de cada episódio são levados pra a casa funerária dos Fisher, onde eles tem que lidar com os familiares dos falecidos e frequentemente, com os próprios “fantasmas” dos mortos.


Os personagens vão do Céu ao Inferno durante a série.
Não necessariamente nessa ordem.

Durante os 5 anos em que foi exibida, a série teve 63 episódios com 50 minutos de duração e recebeu 53 indicações a todo tipo de prêmio da televisão americana, dos quais ganhou 11, incluindo 3 Globos de Ouro por Melhor Série Dramática (2002), Melhor Atriz Coadjuvante em Série – Rachel Griffiths (2002) e Melhor Atriz em Série Dramática – Francês Conroy (2004).

E os atores, incluindo os coadjuvantes, dão um show à parte. Todos tem seus preferidos, mas essa série torna muito complicado decidir qual ator ou atriz é melhor, tão boa foi a seleção de elenco e o posterior desenvolvimento dos personagens pelos roteiristas, atores e diretores.


Federico (Freddy Rodriguez), o embalsamador oficial da casa, adora o que faz e é a pessoa mais sã da série e o personagem mais simpático.

Assisti toda a série no ano passado e posso garantir que ela me afetou, afetou meu casamento e meu modo de ver a vida.

O final da série são os 5 minutos mais belos e tristes que já vi na TV e não conheço uma alma que não tenha ficado chorando por muito tempo depois que ela acabou.

Se você tem mais de 18 anos e se importa com questões como a morte, sobre o que estamos fazendo aqui, para onde vamos, de onde viemos e se a vida vale à pena, essa série é para você.

Assista enquanto pode, pois a vida pode ser mais curta do que você imagina.


A linda e lírica abertura da série. Trilha de Thomas Newman.

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